[A acumulação primitiva] exigiu a destruição do poder das mulheres, que, tanto na Europa como na América, foi alcançada por meio do extermínio das 'bruxas'.Silvia Federici · Calibã e a Bruxa, pp. 118-119 (Elefante)
Silvia Federici reescreve a história do nascimento do capitalismo a partir de quem ela costuma deixar de fora: as mulheres. E encontra, na perseguição às bruxas, uma peça central, não um detalhe pitoresco.
Publicado em 2004, Calibã e a Bruxa dialoga com Marx e o corrige. A acumulação primitiva, aquela origem violenta do capital, não cercou apenas as terras: cercou também os corpos das mulheres, expropriando o seu poder e o seu trabalho.
A caça às bruxas como disciplina
Para Federici, a perseguição às bruxas, entre os séculos XVI e XVII, foi um ataque organizado à autonomia das mulheres: ao seu saber sobre o corpo, à contracepção, à vida comunitária. Foi também a imposição de um novo papel, o de reprodutora gratuita de força de trabalho.
A caça às bruxas foi um elemento essencial da acumulação primitiva e da 'transição' ao capitalismo.Silvia Federici · Calibã e a Bruxa, p. 295 (Elefante)
Quem sustenta quem trabalha
O capitalismo se ergue sobre um trabalho que não aparece na conta: o trabalho reprodutivo, doméstico e de cuidado, feito sobretudo por mulheres e sem salário. Federici mostra que esse trabalho invisível é a base que torna possível todo o resto.
Marx relido pela diferença
O NEXO lê Federici como quem completa Marx, não como quem o descarta. Onde Engels já ligava a opressão da mulher à propriedade privada, Federici aprofunda: o capital nasceu também de uma guerra contra as mulheres, e ignorar isso é entender o sistema pela metade.
Na análise de Marx sobre a acumulação primitiva tampouco aparece alguma referência à 'grande caça às bruxas' dos séculos XVI e XVII.Silvia Federici · Calibã e a Bruxa, p. 119 (Elefante)
O trabalho doméstico e de cuidado, não pago, que sustenta a força de trabalho e o sistema inteiro.
Engels ligou a opressão da mulher à propriedade privada. Federici retoma e aprofunda essa relação.
A origem violenta do capital, que para Federici cercou não só as terras, mas os corpos das mulheres.
Calibã e a Bruxa muda o olhar: a história do capitalismo deixa de ser só a do operário na fábrica e passa a incluir a mulher cujo corpo e trabalho foram a condição silenciosa de tudo.
Feminismo, Trabalho e Natureza.
