Um filme nunca é só uma história
Coleção Bacurau · Trilha 1 · Módulo 1

"Dessa senhora, Carmelita, que nos deixou, tivemos médicos, advogados, engenheiros, militares, prostitutas, drogados. Só não nasceu ladrão."
Professor Plínio, em Bacurau (2019)
Pense nessa fala por um momento.
O Professor Plínio não está fazendo um elogio protocolar no velório da matriarca de Bacurau. Ele está dizendo que, naquela comunidade, prostitutas e advogados ocupam o mesmo plano moral. Que ninguém precisa escolher entre dignidade e sobrevivência. Que o único verdadeiro desonesto não é o pobre nem o marginalizado: é o ladrão, e ladrão naquela cidade não nasceu.
Isso é uma posição política. Dita com duas frases, dentro de uma cena de velório, sem cartaz e sem discurso. É assim que o cinema faz política: não através de slogans, mas através de escolhas sobre o que mostrar, como mostrar e o que deixar no silêncio.
Toda cena de um filme é resultado de um conjunto de decisões: onde posicionar a câmera, qual ângulo usar, quanto tempo deixar a imagem durar, o que mostrar e o que cortar, qual música colocar embaixo de qual momento. Nenhuma dessas decisões é neutra. Quando um diretor enquadra um personagem de baixo para cima, comunica poder. Quando deixa a câmera tremer, comunica instabilidade ou urgência. Quando usa luz fria e azulada numa cena e luz quente e amarelada em outra, como no exemplo do color grading que vimos antes, está construindo hierarquias visuais mesmo sem escrever uma palavra.
Essas hierarquias se acumulam. Ao longo de um filme, elas formam uma visão de mundo: quem é o herói, quem é a ameaça, o que é normal, o que é estranho, quem merece atenção e quem pode ser ignorado. O sociólogo Pierre Bourdieu chamou de "arbitrário cultural" exatamente esse processo: o conjunto de valores e visões de mundo que uma cultura dominante apresenta como se fossem naturais e universais, quando na verdade refletem interesses e perspectivas muito específicas (BOURDIEU apud ALBERT, 2023). Aplicado ao cinema, o conceito revela algo incômodo: muito do que parece ser apenas estética, a escolha de uma cor, de um ângulo, de quem ocupa o centro do quadro, é também uma afirmação sobre quem tem valor e quem não tem.
E o cinema trabalha com uma vantagem particular. Ele chega até nós embrulhado em emoção. A gente chora, ri, sente medo, torce por personagens que nunca existiram. Esse envolvimento emocional não cancela o político: ele o potencializa. É mais fácil absorver uma visão de mundo quando ela está dentro de uma história que você está sentindo do que quando ela está numa tese que você está lendo.
Por isso, quando Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles decidiram que o velório de Carmelita seria uma das cenas mais bonitas de Bacurau, colorida, musical, com diversidade de rostos tratados com dignidade, essa não foi uma decisão estética separada da política. Foi uma afirmação sobre quem merece beleza cinematográfica. Sobre quem existe de verdade na tela.
A crítica de cinema Ivana Bentes descreveu Bacurau como "um faroeste transgênero... um cangaço trans em que cada espectador projeta suas referências e desejos" (BENTES apud MELLO, 2021, p. 425). A frase capta algo importante: o filme funciona como superfície de projeção justamente porque suas escolhas formais são densas o suficiente para comportar múltiplas leituras. Isso não é ambiguidade por preguiça narrativa. É uma forma de cinema que exige que o espectador complete o sentido, que chegue com suas próprias referências e saia com perguntas novas.
Dizer que um filme é político, portanto, não é dizer que ele tem mensagem partidária ou que o diretor quer te convencer de algo. É dizer que ele carrega uma visão de mundo. Que suas escolhas comunicam algo sobre quem importa e quem não importa, sobre o que é normal e o que é aberração, sobre o passado e o futuro. Todo filme faz isso. A diferença está em se essas escolhas são conscientes ou não, e se quem assiste está equipado para percebê-las.
É esse equipamento que essa trilha pretende construir.
Referências deste módulo
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
Referências
- ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
- MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
Declaração de uso de IA
Texto elaborado com apoio de IA (Claude, Anthropic). Curadoria, revisão e responsabilidade editorial: Laís Luz. A IA não figura como autora.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Um filme nunca é só uma história. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Um filme nunca é só uma história. Revista NEXO, .
