O cinema como documento do seu tempo
Coleção Bacurau · Trilha 1 · Módulo 2

"Outros virão."
Última legenda de Bacurau (2019)
Filmes envelhecem de formas muito reveladoras.
Um faroeste americano dos anos 1950 mostra índios como selvagens sem linguagem, obstáculos para o progresso branco. Hoje, assistir a esses filmes é uma aula sobre o que a sociedade americana daquela época considerava legítimo dizer sobre povos indígenas. Uma novela brasileira dos anos 1970 registra, nas bordas, os limites do que era possível falar sob a ditadura. Um filme de ficção científica dos anos 1980 captura medos sobre tecnologia e ordem que décadas depois ajudam a entender aquele momento histórico melhor do que muitos documentos oficiais.
Isso não significa que esses filmes sejam apenas registros históricos, sem valor artístico. Significa que toda obra cinematográfica carrega, além da história que conta, a marca do tempo em que foi feita. E quanto mais o tempo passa, mais visível essa marca fica.
O Cinema Novo brasileiro dos anos 1960 é um exemplo especialmente rico. Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros cineastas da época criaram um movimento de urgência política e estética: mostrar o Brasil que o cinema comercial ignorava. A seca, o latifúndio, a miséria, a violência do coronelismo nordestino. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Vidas Secas (1963) eram, ao mesmo tempo, denúncia social e experimento formal. Documentos de um Brasil que existia e era sistematicamente invisibilizado pelas telas.
Cinquenta anos depois, Bacurau abre com uma sequência que parece ficção científica: a câmera desce do espaço, passa pela atmosfera, e se aproxima de um Brasil visto de cima, apagado, sem luz elétrica nas regiões periféricas. Logo a seguir, a primeira cena terrestre: uma estrada do sertão, destroços de animais atropelados, um caminhão carregando caixões. Beleza e horror, lado a lado, sem mediação.
Essa abertura não é gratuita. As pesquisadoras Carla Macedo Martins e Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor (2022), da Fiocruz, analisam que ela reproduz a estrutura alegórica do Tropicalismo: o Brasil visto primeiro de fora e de longe, na escala do universo, e então encontrado em sua realidade mais brutal e concreta. A música que embala essa descida, "Não Identificado", composta por Caetano Veloso e cantada por Gal Costa em 1969, é ela mesma um documento tropicalista. Nasceu de um momento em que artistas tentavam decifrar o Brasil como um país que havia modernizado sua economia sem resolver suas contradições mais antigas.
Bacurau, lançado em 2019, retoma esse diálogo e faz a pergunta que o Tropicalismo deixou em aberto: e agora? Cinquenta anos depois, o que mudou? E, diferente de Glauber Rocha, que construía seus filmes com alguma promessa de redenção, uma saída mística ou política para a violência do sertão, Bacurau não oferece teleologia. Não há messias, não há redenção final. Martins e Mayor (2022, p. 492) sintetizam essa distinção:
"A dialética arcaico-moderno revisitada por Bacurau não comporta a promessa redentora que movia Glauber Rocha. O que o filme propõe é uma resistência melancólica, que sabe de sua própria parcialidade e não se ilude com vitórias definitivas. O museu, os mortos, as manchas de sangue que ficam nas paredes: tudo indica que a luta foi travada, mas que os ciclos se repetem."
É por isso que o filme termina com apenas duas palavras na tela: "Outros virão". Não é um final de vitória. É a consciência de que a ameaça não se encerrou, que o ciclo da violência continua, e que a resistência de Bacurau, por mais real e organizada que tenha sido, é apenas um capítulo de uma história muito mais longa.
O museu do vilarejo condensa tudo isso. Lá estão as fotografias dos cangaceiros, as armas do passado, os registros de uma história de resistência nordestina que o Brasil oficial preferiu esquecer ou transformar em folclore. Martins e Mayor (2022) chamam o museu de espaço de "narrativas sobre narrativas": não apenas um lugar que guarda objetos, mas um lugar que guarda versões da história que poderiam ter sido apagadas. Quando a comunidade pega as armas do museu para se defender dos invasores, a imagem é direta: o passado não é decoração. É recurso.

É o cinema operando como documento vivo. Não apenas registrando o que existe, mas escolhendo o que merece ser lembrado e de que ângulo. E ao fazer esse tipo de escolha, todo filme, mesmo sem perceber, está dizendo algo sobre qual passado importa e qual pode ser esquecido.
Como observam Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 4): "a relevância de Bacurau está na capacidade de transformar questões sociais complexas em narrativa cinematográfica contundente. A obra evidencia como a opressão opera em múltiplas camadas, desde grandes estruturas de poder global até as pequenas violências cotidianas."
A pergunta que fica é inevitável: se a história se repete, e se o cinema pode ajudar a ver essa repetição, o que fazemos com esse reconhecimento?
Referências deste módulo
MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Referências
- MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
- OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Declaração de uso de IA
Texto elaborado com apoio de IA (Claude, Anthropic). Curadoria, revisão e responsabilidade editorial: Laís Luz. A IA não figura como autora.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O cinema como documento do seu tempo. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O cinema como documento do seu tempo. Revista NEXO, .
