Disputas de narrativa e poder simbólico
Coleção Bacurau · Trilha 1 · Módulo 4

"Estamos sob o efeito de fortes psicotrópicos."
Professor Plínio, em Bacurau (2019), anunciando à comunidade o que tomaram antes da resistência final
Essa fala do Professor Plínio é estranha se você espera um líder que mobiliza o povo com discurso inflamado. Não há grito, não há bandeira, não há promessa de vitória. Há apenas a declaração honesta de que a comunidade se preparou para o que vem, usando o que tem, o conhecimento das plantas, a medicina da Damiana, o saber que pertence àquele lugar desde antes de qualquer invasão.
Bacurau é um filme cheio de cenas assim: momentos em que a narrativa recusa o que seria óbvio e entrega algo que exige mais atenção. E entender por que o filme faz essas escolhas é entender o que está no centro deste módulo: disputas de narrativa.
Uma disputa de narrativa não é apenas uma briga sobre quem conta a história. É uma briga sobre o que a história significa. Quem é o inimigo real? Quem é responsável pelo que acontece? O que constitui resistência legítima? E quem tem o poder de definir essas respostas?
Bacurau monta três camadas de conflito que nunca se reduzem a uma só. A primeira é a mais visível: americanos e europeus que chegam ao Brasil para caçar moradores de uma comunidade como se fossem animais. A segunda é menos visível mas igualmente central: o prefeito Tony Jr., brasileiro, do mesmo país, que corta a água da comunidade, entrega seu mapa aos invasores e vende sua gente por interesses políticos e financeiros. A terceira é a dos "sulistas", brasileiros do Sul que colaboraram com os americanos acreditando compartilhar com eles uma identidade superior.
Jefferson Agostini Mello (2021) faz uma análise que vai na contramão da leitura mais imediata do filme: o inimigo real de Bacurau não são os americanos. São Tony Jr. e tudo o que ele representa. Os americanos são a violência de fora, direta e brutal. Mas é a violência de dentro, a do corrupto que abandona e entrega sua própria comunidade, que tornou toda a caçada possível (MELLO, 2021). Sem Tony Jr. não há mapa, não há água cortada, não há comunicação bloqueada. O predador externo depende do traidor interno para funcionar.
Isso conecta Bacurau a uma longa tradição de resistência nordestina que o filme evoca conscientemente. Mello (2021) aponta a relação entre a batalha de Canudos, descrita por Euclides da Cunha em Os Sertões (1902), e a organização da comunidade de Bacurau: em ambos os casos, uma comunidade periférica, tida como atrasada e descartável pelas elites do centro, usa o conhecimento do próprio território para resistir a forças militarmente superiores. Em Canudos, as táticas de emboscada usadas pelos seguidores de Antônio Conselheiro desconcertaram o exército brasileiro durante meses. Em Bacurau, a comunidade conhece cada palmo de terreno que os invasores desconhecem.

Saulo Albert (2023) aprofunda esse mapa de conflito usando os conceitos de Bourdieu. Cada um dos três grupos do filme, a comunidade nordestina, os sulistas e os americanos, opera com um habitus diferente, um conjunto de disposições e visões de mundo que produz formas distintas de perceber o outro e a si mesmo. Os americanos enxergam toda população brasileira como primitiva e disponível para dominação. Os sulistas enxergam os nordestinos como inferiores e a si mesmos como próximos dos americanos. A comunidade de Bacurau enxerga seu território, sua história e sua organização coletiva como os recursos de que dispõe.
O paradoxo, como mostra Albert (2023), é que os sulistas reproduzem internamente a lógica que os oprime externamente. Ao menosprezar os nordestinos com os mesmos critérios com que os americanos os menosprezarão depois, eles mostram que o colonialismo não opera apenas entre países: opera dentro dos países, entre regiões, entre classes, entre quem se considera moderno e quem é considerado atrasado.
Há uma cena que concentra tudo isso de forma quase silenciosa. Domingas, a médica da comunidade, encontra Michael, o líder americano, e em vez de fugir, serve a ele um almoço. Coloca a mesa, apresenta a comida, age com a dignidade de alguém que não precisa pedir para existir. Michael, que veio para matar, se vê diante de uma pessoa. Não de um alvo. E aquilo o desestabiliza de um jeito que nenhuma arma conseguiu. Ele vira a mesa e vai embora sem a matar. A cena não tem discurso. Mas é, à sua maneira, uma disputa de narrativa: a de quem define a humanidade de quem.
E o final do filme faz uma escolha narrativa que muitos espectadores estranham: Michael não é morto. É enterrado vivo. Mello (2021) interpreta isso como recusa do desfecho fácil, a vitória definitiva que limpa a história e encerra o ciclo. Enterrar vivo é dizer que o mal não foi eliminado, apenas contido. Que há algo subterrâneo que permanece. Que a vigilância precisa continuar. É a mesma mensagem da legenda final, "Outros virão", condensada em uma imagem perturbadora.
Como sintetizam Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 4-5):
"A resistência coletiva e organizada do povo de Bacurau evidencia a força da identidade territorial e da solidariedade comunitária como formas de enfrentamento à opressão. A comunidade não se submete passivamente ao extermínio planejado; ao contrário, articula-se estrategicamente, partindo do conhecimento ancestral de seu território, para reverter a lógica colonial que busca dominá-la."
A disputa de narrativa em Bacurau, portanto, não é só sobre quem conta a história do Nordeste. É sobre quem tem o poder de definir quem é o inimigo, quem merece resistência e quem merece lembrança. E o filme responde a isso de uma forma que recusa tanto o vitimismo quanto o triunfalismo: a comunidade vence esse confronto específico, mas o ciclo não acabou. A história continua sendo disputada.
Isso é o que diferencia um filme político de um panfleto. O panfleto dá respostas. O filme político faz perguntas que você leva para casa.
Referências deste módulo
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 1902.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Referências
- ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
- CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 1902.
- MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
- OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Declaração de uso de IA
Texto elaborado com apoio de IA (Claude, Anthropic). Curadoria, revisão e responsabilidade editorial: Laís Luz. A IA não figura como autora.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Disputas de narrativa e poder simbólico. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Disputas de narrativa e poder simbólico. Revista NEXO, .
