Cinema, identidade e educação
Coleção Bacurau · Trilha 1 · Módulo 5

"Você conhece o nosso museu? Está aberto. Pode visitar."
Moradora de Bacurau (2019), ao receber visitantes no vilarejo
Há algo revelador nessa cena pequena. Uma comunidade sem água, politicamente abandonada, desaparecida do mapa digital, e cujo primeiro instinto ao receber um estranho é perguntar: você já viu o nosso museu? Vem, olha nossa história.
Bacurau deixa muito claro desde cedo o que considera a base de qualquer forma de resistência: saber quem você é e de onde você vem. O museu guarda as fotografias dos cangaceiros, os registros das lutas passadas, as armas da memória coletiva. A escola aparece primeiro como espaço de vida, com o Professor Plínio ensinando botânica de um ônibus em movimento, conhecimento sendo transmitido mesmo em condições precárias, com dignidade integral. E quando a invasão começa, é das janelas da escola que a comunidade resiste. Museu e escola funcionam como a mesma coisa: a infraestrutura da identidade. O espaço que diz nós sabemos quem somos.
Essa é uma das contribuições mais concretas que o cinema pode oferecer à educação: a pergunta sobre quem aparece na tela e com que tipo de história.
Pense no efeito de passar anos consumindo filmes e séries em que pessoas como você, da sua região, da sua cor, da sua classe social, aparecem sempre como problema a ser resolvido, como vítima a ser salva, como alvo de pena ou de violência. E nunca como protagonista de uma história própria, complexa, digna de atenção. Esse acúmulo não fica no campo do entretenimento. Ele forma a maneira como você se imagina no mundo.
A teórica Homi Bhabha trabalhou com a ideia de que identidades não são fixas nem dadas de antemão: elas são construídas em relação, no encontro entre grupos, nas disputas sobre como cada um é visto e como cada um se vê. Não existe uma essência nordestina, uma essência negra, uma essência periférica que o cinema distorce ou captura. Existem narrativas em conflito sobre o que esses grupos são, e essas narrativas têm consequências reais sobre como as pessoas vivem e se reconhecem (BHABHA apud FERREIRA; PEREIRA, 2025).
Quando Bacurau mostra uma comunidade nordestina com médica, professor, shamã, DJ, artistas, guerreiras, não está "corrigindo" a imagem do Nordeste como se houvesse uma verdade a ser restaurada. Está inserindo outras narrativas no campo de disputa. Está dizendo que aquele lugar produz sujeitos complexos, que existem de muitas formas e não apenas das formas que o cinema costumou mostrar.
Para quem assiste reconhecendo algo de si nessa comunidade, a experiência tem um efeito específico que o crítico de cinema bell hooks chamou de "prazer desafiador": ver-se representado com dignidade, mesmo dentro de uma história de violência e perigo, é uma experiência que não se parece com a maioria dos filmes que mostram esse tipo de comunidade. Provoca algo que vai além da identificação emocional: é quase um ajuste na lente com que você enxerga sua própria posição no mundo.
Para quem assiste de fora, o efeito pode ser o de confronto: uma comunidade que você imaginava de um jeito aparece de outro, e esse descompasso exige que você faça algo com ele. Ignore, reforce o que já pensava ou revise.
É por isso que o cinema, quando usado com atenção, é uma das ferramentas pedagógicas mais potentes que existem. Não porque ensina conteúdo de forma ilustrada, mas porque provoca o tipo de desconforto produtivo que nenhuma aula expositiva consegue gerar da mesma forma. Você sente antes de racionalizar. E o que sentiu não some quando o racional chega: ele tensiona, complica, enriquece.
Como observa a resenha crítica publicada pela UNEB sobre o filme:
"Sob um olhar literário e crítico, a obra convoca o espectador a refletir sobre seu lugar não apenas como espaço geográfico, mas como território de identidade, história e existência." (OLIVEIRA; JESUS; ARAÚJO, 2025, p. 2)
Para professores e educadores, essa dimensão tem implicações práticas. Usar Bacurau em sala de aula não significa exibir o filme e pedir uma resenha. Significa criar as condições para que as perguntas certas apareçam: quem está contando essa história? O que ela inclui e o que ela deixa de fora? Quem você reconhece nela? O que você sentiu quando viu determinada cena, e por que acha que sentiu isso?
Essas perguntas não têm uma resposta correta. E é exatamente por isso que são educativas. Elas treinam algo que vai além do cinema: a capacidade de não aceitar passivamente as representações que chegam até nós, seja no filme, seja na notícia, seja na fala do político, seja na propaganda.
Isso é o exercício de cidadania que o cinema pode oferecer: não uma lição sobre o que pensar, mas um treino em como pensar. Em reconhecer que toda imagem é uma escolha. Que toda escolha carrega um ponto de vista. E que perguntar sobre esse ponto de vista é um ato de presença no mundo.

Bacurau não resolve a questão da representação. Não existe filme que resolva. Mas ele a coloca no centro da narrativa de uma forma que é difícil ignorar. E talvez seja exatamente esse desconforto produtivo, o de sair da sessão com mais perguntas do que respostas, o maior argumento pedagógico que a obra oferece.
Referências deste módulo
FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Referências
- FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
- OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Declaração de uso de IA
Texto elaborado com apoio de IA (Claude, Anthropic). Curadoria, revisão e responsabilidade editorial: Laís Luz. A IA não figura como autora.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Cinema, identidade e educação. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Cinema, identidade e educação. Revista NEXO, .
