Antes de ver Bacurau
Coleção Bacurau · Trilha 1 · Módulo 6
"Um pouco depois do nosso futuro."
Legenda de abertura de Bacurau (2019)
Bacurau começa recusando o passado e o presente como âncoras. "Um pouco depois do nosso futuro" não é uma informação de época: é uma operação temporal deliberada, tirar a história de um contexto localizável para que ela fale de todos os contextos ao mesmo tempo. É o que o crítico Ismail Xavier chama de alegoria catastrófica: uma narrativa que usa imagens de uma crise específica para iluminar algo sobre a estrutura mais permanente de uma sociedade (XAVIER apud MELLO, 2021).
Se você chegou até aqui lendo essa trilha, você já tem as ferramentas que esse filme exige.
Você sabe que o cinema faz escolhas: de ângulo, de cor, de quem aparece e como, do que fica em silêncio. Em Bacurau, essas escolhas são conscientes e simultâneas. Jefferson Agostini Mello (2021) identifica pelo menos três procedimentos formais que o filme opera ao mesmo tempo: as referências culturais e literárias sobre o Nordeste brasileiro, incluindo a história de Canudos e a tradição do cangaço; o vocabulário do cinema de gênero, faroeste, gore, ficção científica; e a crítica ao presente como anacronismo, a repetição de violências históricas que se atualizam em formas novas mas mantêm a mesma lógica de sempre.
Você sabe que o cinema é documento do seu tempo. Bacurau dialoga com o Tropicalismo de 1969 e com o Cinema Novo de Glauber Rocha porque há algo nessa conversa que continua sem resolução. A abertura do filme, com a câmera descendo do espaço sobre um Brasil apagado e a música "Não Identificado" de Caetano Veloso ao fundo, já é um argumento antes de qualquer cena dramática (MARTINS; MAYOR, 2022).
Você sabe que representação é poder. Quem aparece nesse filme e como vai dizer algo sobre quem importa nessa história. Preste atenção na comunidade, em sua diversidade, em como as relações de afeto, trabalho e decisão funcionam ali. E preste atenção em como os grupos externos enxergam essa mesma comunidade: o que revelam sobre si mesmos ao fazê-lo (FERREIRA; PEREIRA, 2025).
Você sabe que as disputas de narrativa importam. O filme vai te mostrar três camadas de conflito e vai te pedir que você não simplifique. Quem é o inimigo real? O que torna possível a violência que você vai ver? Quem traiu quem, e por quê? Essas perguntas têm respostas no filme, mas elas não são fáceis (MELLO, 2021; ALBERT, 2023).
E você sabe que o que o cinema faz com a identidade importa. Vai haver personagens que você provavelmente não esperava encontrar desse jeito, em posições que não são as que o cinema costumou reservar para pessoas como elas. Preste atenção no que você sente quando isso acontece.
Dito tudo isso, há uma coisa que nenhuma análise substitui: o próprio filme. Como a crítica Ivana Bentes descreveu, Bacurau é "um faroeste transgênero... um cangaço trans em que cada espectador projeta suas referências e desejos" (BENTES apud MELLO, 2021, p. 425). Isso significa que a sua leitura vai ser, em alguma medida, uma leitura de você mesmo: do que você reconhece, do que te perturba, do que você preferiria não ver.
Não existe interpretação correta de Bacurau. Pesquisadores de sociologia, história, estudos culturais e cinema chegaram a leituras muito diferentes, e todas encontram algo sólido no filme para sustentar. O que existe é qualidade de atenção: quanto mais você está disposto a olhar para o que o filme está fazendo, e não apenas para o que está acontecendo, mais ele tem a oferecer.
Como sintetizaram Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 5):
"Em última análise, Bacurau mostra com clareza que a violência começa muito antes dos tiros; ela surge quando deixamos de ver o outro como igual. Quando algumas vidas passam a valer menos, quando comunidades desaparecem dos mapas e ninguém se importa."
Essa é a pergunta que o filme vai fazer durante suas 131 minutos: você ainda está vendo o outro como igual? E quando parou de fazer isso?
A Trilha 2 entra no filme cena a cena. Mas antes de avançar, a melhor coisa que você pode fazer é assistir.
REFERÊNCIAS COMPLETAS DA TRILHA 1
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 1902.
FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Referências
- ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
- CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Ateliê Editorial, 1902.
- FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
- MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
- MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
- OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Declaração de uso de IA
Texto elaborado com apoio de IA (Claude, Anthropic). Curadoria, revisão e responsabilidade editorial: Laís Luz. A IA não figura como autora.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Antes de ver Bacurau. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Antes de ver Bacurau. Revista NEXO, .
