A câmera desce
Coleção Bacurau · Trilha 2 · Módulo 1
"Não Identificado"
Caetano Veloso e Gal Costa (1969), trilha sonora de abertura de Bacurau (2019)
O cinema começa antes do primeiro personagem aparecer.

Em Bacurau, essa verdade é levada a sério de uma forma que é difícil esquecer. A sequência de abertura do filme não tem diálogo, não tem apresentação de personagem, não tem conflito dramático claro. Tem uma câmera que desce lentamente do espaço sideral em direção à Terra, passa pela atmosfera e vai se aproximando de uma visão aérea do Brasil de noite: um país quase sem luz elétrica nas regiões periféricas. E sobre essa descida, uma canção de 1969: "Não Identificado", de Caetano Veloso, cantada por Gal Costa no disco Tropicália 2.
Essa abertura não é decoração. Ela é o argumento principal do filme, colocado antes de qualquer cena dramática.
As pesquisadoras Carla Macedo Martins e Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor (2022) analisam essa sequência como uma reprodução da estrutura alegórica do Tropicalismo: o Brasil visto primeiro de fora e de longe, na escala do universo, e então encontrado em sua realidade mais brutal e concreta. A câmera desce do espaço e pousa na seca do sertão. A música foi composta no mesmo momento em que o Brasil sofreu um dos golpes mais duros da ditadura militar, o AI-5, em dezembro de 1968, e carrega a marca desse tempo: o que fazer com um país que modernizou sua fachada sem resolver suas contradições mais antigas?
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles escolheram essa música para abrir um filme lançado em 2019. Não por nostalgia. A escolha diz que a pergunta de 1969 continua sem resposta. Que o diálogo com o Tropicalismo não é arqueológico: é sobre o presente.
A legenda que aparece na tela antes de qualquer imagem confirma essa operação temporal: "Um pouco depois do nosso futuro." Não é "no futuro" nem "no passado": é um futuro que já começou a acontecer. O crítico Ismail Xavier chama esse recurso de alegoria catastrófica: uma narrativa que usa imagens de uma crise específica para iluminar algo sobre a estrutura mais permanente de uma sociedade. O tempo indefinido torna o filme simultaneamente histórico e profético (XAVIER apud MELLO, 2021).
Olhe para o Brasil sem luz da abertura. Não é uma metáfora discreta. É literal e simbólica ao mesmo tempo: um país em que grandes porções do território não aparecem no mapa quando visto de longe. Não têm infraestrutura, não têm conexão, não têm visibilidade nos sistemas que decidem o que existe e o que não existe. Depois de vermos esse Brasil apagado do espaço, a câmera desce até a seca, até a estrada, até os animais mortos à beira do asfalto. O contraste não é comentado. Ele é apenas mostrado.
Isso é uma decisão política de montagem.
Martins e Mayor (2022, p. 491) observam que a abertura recusa "a narrativa do progresso que associa desenvolvimento econômico a inclusão social". O Brasil que aparece nessa câmera descendente não é o Brasil das fotografias oficiais, dos índices de crescimento, das metrópoles iluminadas. É o Brasil que existe apesar e à margem desses índices. E ao começar o filme com esse Brasil, Kleber e Dornelles estão dizendo que é sobre esse Brasil que o filme vai falar. E que é desse Brasil que a história vai emergir.
Há algo mais a notar nessa sequência: o silêncio antes da música. Os primeiros segundos são de espaço sideral, sem som além do ambiente. E então a voz de Gal Costa entra com uma letra que fala de algo "não identificado", que aparece e some, que não se encaixa nos sistemas de classificação disponíveis. É quase uma descrição do próprio vilarejo de Bacurau, que vai desaparecer do mapa digital antes de qualquer tiro ser disparado.
Quando a análise de Bacurau começa por essa abertura, ela começa pela pergunta mais básica de toda análise fílmica: o que o filme quer dizer antes de começar a contar a história? A resposta, nesse caso, é muito.
Referências deste módulo
MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. A câmera desce. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). A câmera desce. Revista NEXO, .