O prefeito e o mapa que some
Coleção Bacurau · Trilha 2 · Módulo 3
"É um presente do prefeito pra vocês."
Funcionário de Tony Jr., em Bacurau (2019), entregando sacolas de comida vencida e medicamentos impróprios

Tony Jr. nunca manda um exército. Nunca aparece de arma em punho. Quando chega ao vilarejo, chega num caminhão de som, com presentes.
É essa normalidade da violência do Estado que o filme coloca no centro de uma das suas sequências mais reveladoras: a visita do prefeito. E é também onde o filme faz uma das suas afirmações mais precisas sobre como o poder funciona no Brasil.
Os presentes são alimentos com prazo vencido e medicamentos que não podem ser usados. Domingas os examina na frente de todo mundo e declara isso em voz alta. Tony Jr. responde com um sorriso que mistura condescendência com impaciência: ele não veio para ser escrutinizado, veio para ser aplaudido. A comunidade não aplaude. Ele vai embora.
Essa cena tem uma camada que escapa fácil na primeira visão: Tony Jr. não é apresentado como um vilão clássico. Ele não tem brutalidade visível, não intimida com violência direta. Ele tem o comportamento específico de quem está acostumado a que sua presença seja tratada como um favor. Jefferson Agostini Mello (2021) analisa Tony Jr. como o inimigo real do filme: mais do que os invasores americanos, é ele quem torna possível tudo que vai acontecer depois. Sem ele, não há mapa entregue, não há água cortada, não há comunicação bloqueada. O predador externo depende da traição interna para funcionar.
E então o mapa some.
O desaparecimento digital de Bacurau é um dos recursos formais mais comentados do filme. Em algum momento, o vilarejo simplesmente deixa de existir nos mapas online. Quem tenta localizá-lo não encontra nada. Não há mais endereço, não há mais ponto de referência. Para os sistemas digitais que organizam o mundo contemporâneo, Bacurau não existe.
Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 4) analisam esse recurso como a materialização visual de um processo real: "O desaparecimento da comunidade de Bacurau do mapa materializa o apagamento simbólico e real que populações marginalizadas sofrem diante de projetos de poder que as consideram descartáveis." Não estar no mapa não é apenas não ter endereço. É não existir para quem decide o que importa. É estar disponível para ser usado, removido, caçado, sem que isso precise ser justificado.
O corte de água acontece na mesma sequência de ações de Tony Jr.: comida vencida, medicamentos impróprios, mapa apagado, água cortada. São violências de diferentes ordens operando juntas. Nenhuma delas é o tiro. Todas elas preparam o tiro.
Saulo Albert (2023) usa Bourdieu para analisar essa estrutura e mostra como ela revela a especificidade do colonialismo interno no Brasil: Tony Jr. é brasileiro, nordestino, representa politicamente aquela região, e é exatamente ele quem entrega sua comunidade ao extermínio. A violência que vem de fora, a dos americanos, depende de uma porta aberta por dentro. E essa porta é a do político que tratou sua comunidade como um recurso a ser explorado, não como um conjunto de pessoas a quem deve algo.
O filme não explica as motivações de Tony Jr. em detalhe. Não há monólogo de vilão, não há flashback de corrupção. Há apenas a coerência dos seus atos, que falam por si: ele quer continuar no poder, e para isso precisa de aliados que não são sua comunidade. Bacurau, para Tony Jr., é um obstáculo que ele prefere que deixe de existir.
Martins e Mayor (2022) observam que essa estrutura, em que a violência direta vem de fora mas a cumplicidade estrutural vem de dentro, é uma característica central da narrativa política do filme. O inimigo não é apenas o estrangeiro predador. É o sistema que produz Tonys Jrs: políticos que acumulam poder oferecendo para seus eleitores exatamente o suficiente para que o que recebem não seja nada, e tratando qualquer demanda real como ingratidão.
A cena termina com o caminhão de som de Tony Jr. saindo do vilarejo. A música para. O silêncio que fica é o silêncio de uma comunidade que vai precisar se defender sozinha.
Referências deste módulo
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
MARTINS, Carla Macedo; MAYOR, Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor. Bacurau: no futuro, só resistência? Novos Estudos CEBRAP, v. 41, n. 3, p. 489-505, 2022.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O prefeito e o mapa que some. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O prefeito e o mapa que some. Revista NEXO, .