Quem são os caçadores
Coleção Bacurau · Trilha 2 · Módulo 4
"Eu paguei para estar aqui. Eu posso fazer o que eu quiser."
Michael (Udo Kier), em Bacurau (2019)

Os invasores de Bacurau têm um nome para o que fazem. Eles chamam de esporte.
É uma das escolhas mais desconcertantes do roteiro: não são mercenários nem soldados nem terroristas. São turistas. Pagaram para estar ali. Têm regras de competição. Discutem cotas de disparos por pessoa. Michael, o organizador americano, aplica advertências quando alguém desrespeita o acordo. É a gramática do lazer aplicada ao assassinato.
Essa gramática não é gratuita. É a afirmação mais direta que o filme faz sobre como o colonialismo contemporâneo funciona: não apenas como exploração de recursos, mas como entretenimento. Como algo que se compra com dinheiro disponível e se vive como experiência.
Jefferson Agostini Mello (2021) analisa a configuração do grupo invasor como uma microfísica do poder colonial: há americanos e europeus, todos de países do chamado norte global, unidos pela disposição a tratar vidas brasileiras como alvos de caça. A diferença entre eles, que o filme não deixa de mostrar, são conflitos internos sobre as regras do próprio jogo: quem atirou fora do protocolo, quem pegou mais do que a sua cota. São disputas de dentro da lógica predatória, não questionamentos dela.
Saulo Albert (2023) identifica nos invasores um habitus específico nos termos de Bourdieu: um conjunto de disposições que os fazem perceber a população de Bacurau como não-humana por padrão, como alvo disponível. Essa percepção não é apresentada no filme como aberração psicológica individual. É apresentada como resultado de uma estrutura: pessoas com esse nível de recursos e esse tipo de mobilidade pelo mundo, que pagam por experiências de extremo em países periféricos, carregam consigo uma visão de mundo em que certos corpos não têm o mesmo valor que outros.
O recrutamento de brasileiros do Sul para colaborar com os invasores aprofunda essa estrutura. Os sulistas acreditam compartilhar com os americanos uma identidade racial e cultural superior, acima dos nordestinos. Como analisamos na Trilha 1, essa crença é a armadilha colonial clássica: o colonizado que internaliza os valores do colonizador e imagina que, ao fazê-lo, se eleva acima dos seus, esquecendo que, do ponto de vista do colonizador, todos permanecem no mesmo lugar. A cena em que Michael observa o sulista com o binóculo e o declara "um belo macho latino-americano" antes de matá-lo é a demonstração mais brutal dessa armadilha no filme (ALBERT, 2023).
Há um detalhe técnico que vale notar nas cenas que mostram os invasores: a câmera frequentemente os enquadra de uma forma que exagera a artificialidade do seu equipamento. Óculos de visão noturna, capacetes táticos, roupas de campo. Eles chegam com tecnologia sofisticada para encontrar e matar pessoas que conhecem cada palmo do terreno onde vivem. Ferreira e Pereira (2025) observam que essa diferença entre o aparato tecnológico dos invasores e o conhecimento territorial da comunidade é um dos eixos formais do filme: a tecnologia de fora versus o saber de dentro.
O mais perturbador na representação dos invasores, porém, é o ordinário. Eles conversam sobre futebol. Discutem a qualidade da comida local. Se irritam com mosquitos. O horror de Bacurau não é o horror do monstro que vem de outro mundo: é o horror do ser humano funcionando normalmente dentro de uma lógica que transforma outros seres humanos em alvos. Como observam Oliveira, Jesus e Araújo (2025, p. 3), "a representação dos invasores como pessoas comuns, com suas trivialidades e conflitos interpessoais, torna a violência ainda mais chocante ao revelar como sistemas de desumanização podem coexistir com o cotidiano mais banal".
É essa banalidade que o filme exige que o espectador segure. Não a exceção do malvado extraordinário, mas a regra do sistema que produz Michael e seus clientes como possibilidade normal de existência.
Referências deste módulo
ALBERT, Saulo. Bacurau e as paradoxais relações de dominação no Brasil: uma análise bourdieusiana. Revista Livre de Cinema, v. 10, n. 1, 2023.
FERREIRA, Amilton Macário de Araújo; PEREIRA, Isael de Sousa. Bacurau, se for vá na paz: análise da violência como signo de nordestinidade presente no filme. Intercom, 2025.
MELLO, Jefferson Agostini. Bacurau não é um filme de vingança. Sanda, v. 9, n. 2, p. 424-437, 2021.
OLIVEIRA, Glaibson Santos; JESUS, José Jivaldo Oliveira de; ARAÚJO, Thaciane Carneiro. Resenha crítica: Bacurau, a resistência que o Brasil precisa ver. Diálogos e Perspectivas Interventivas, Serrinha, v. 6, n. 2, e26644, 2025.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Quem são os caçadores. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Quem são os caçadores. Revista NEXO, .