Capitalismo, suicídio e crise ambiental
A partir de uma leitura ecossocialista e feminista
Resumo
Os tentáculos do sistema capitalista atravessam todas as dimensões da vida social, evidenciando a urgência de uma atenção crítica às suas consequências sobre a vida humana e a natureza. Mesmo sob novas roupagens, como o chamado "capitalismo verde", a lógica de mercado permanece orientada pela valorização do lucro em detrimento da dignidade das populações e do equilíbrio ambiental, recaindo de forma mais intensa sobre grupos socialmente vulnerabilizados, especialmente mulheres e populações pobres. Este trabalho propõe uma reflexão sobre a relação entre capitalismo, crise ambiental e suicídio, compreendendo o suicídio como expressão extrema do adoecimento social produzido pelo sistema capitalista. O objetivo central é evidenciar que o ecossocialismo e os feminismos oferecem caminhos para uma transformação radical da sociedade, orientada pela defesa da vida, pela igualdade de gênero e pela preservação da natureza. Trata-se de um ensaio teórico de caráter crítico-dialético, fundamentado na metodologia proposta por Severino (2014), compreendendo a análise como movimento de problematização das contradições históricas e de articulação entre categorias teóricas e realidade social concreta, com base em Karl Marx, Michael Löwy, Silvia Federici e Vandana Shiva. Conclui-se que o enfrentamento das crises contemporâneas exige uma transformação estrutural radical, na qual o ecossocialismo feminista se apresenta como alternativa ética e política ao modelo destrutivo do capital.
Palavras-chave: Capitalismo; Suicídio; Crise ambiental; Feminismo; Ecossocialismo.
Neste artigo
- Texto do artigo
- T.1 Introdução
- T.2 Capitalismo, alienação e adoecimento social
- T.3 Crise ambiental e ruptura metabólica: a crise da vida sob o capital
- T.4 Feminismo marxista, corpo e reprodução da vida
- T.5 Vandana Shiva, ecofeminismo e a defesa da vida
- T.6 Considerações finais
- 1 Situação
- 1.1 A situação
- 2 Pergunta
- 2.1 A pergunta central
- 2.2 Antes de seguir
- 3 Contexto
- 3.1 Leia o artigo
- 3.2 Alienação e adoecimento social
- 3.3 Ruptura metabólica
- 3.4 Corpo e reprodução da vida
- 3.5 Ecofeminismo e defesa da vida
- 3.6 Conclusão do texto
- 3.7 Conceitos para ter à mão
- 4 Disputas
- 4.1 Émile Durkheim, 1897
- 4.2 Saúde pública e clínica
- 4.3 Michael Löwy, sobre o próprio Marx
- 4.4 O debate sobre o algodão Bt na Índia
- 4.5 Bina Agarwal, 1992
- 4.6 Antes de concluir
- 4.7 Referências deste item
- 5 Interesses
- 6 Evidências
- 6.1 Classifique cada frase
- 6.2 Para testar a tese no Brasil
- 6.3 Gabarito
- 7 Ferramenta Raio-X
- 7.1 Caso de exemplo
- 7.2 As oito perguntas
- 8 Exercício
- 8.1 Compreensão
- 8.2 Análise
- 8.3 Aplicação no território
- 8.4 Para quem vai usar em sala
- 8.5 Gabarito da compreensão
- 9 Decisão
- 9.1 Volte à pergunta
- 9.2 Referências do artigo
Antes de começar. Este artigo estuda o suicídio como fenômeno social e histórico. Se você está atravessando um sofrimento intenso, procure ajuda: o CVV atende 24 horas, de graça, pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br. Em emergência, ligue 192 (SAMU).
Texto do artigo
T.1 Introdução
A intensificação das crises sociais, ambientais e subjetivas tem evidenciado os limites estruturais do modo de produção capitalista. A degradação dos ecossistemas, o aprofundamento das desigualdades sociais e o aumento de formas extremas de sofrimento humano revelam que a lógica de organização da vida orientada pelo lucro produzindo tanto a destruição material, quanto o adoecimento social. Nesse contexto, torna-se cada vez mais insuficiente tratar fenômenos como a crise ambiental ou o suicídio a partir de explicações individualizantes, técnicas ou moralizantes, dissociadas das condições históricas e estruturais que as produzem.
Entre essas expressões extremas do adoecimento social, o suicídio emerge como um fenômeno particularmente revelador. Longe de ser compreendido apenas como resultado de fragilidades individuais, o suicídio pode ser analisado como sintoma de uma sociedade que subordina a vida humana à lógica do valor, da produtividade e da mercantilização. Já no século XIX, Karl Marx (2023b) apontava que o desespero individual está profundamente vinculado às estruturas sociais de opressão, antecipando uma leitura crítica que permite compreender o suicídio como expressão social de uma vida tornada insuportável.
Ao mesmo tempo, a crise ambiental evidencia que a exploração capitalista não se limita ao trabalho humano, mas se estende à natureza, rompendo ciclos vitais e comprometendo as bases materiais da existência. A articulação entre essas crises revela que o adoecimento subjetivo e a destruição ambiental fazem parte de um mesmo processo histórico, no qual a vida humana e não humana é constantemente sacrificada em nome da acumulação. Essa dinâmica atinge de forma desigual diferentes grupos sociais, recaindo de maneira mais intensa sobre populações vulnerabilizadas, especialmente mulheres, pessoas pobres e comunidades situadas em territórios periféricos.
Diante desse cenário, este trabalho propõe uma reflexão sobre a relação entre capitalismo, crise ambiental e suicídio, compreendendo o suicídio como expressão extrema do adoecimento social produzido pelo sistema capitalista. O objetivo central é evidenciar que o ecossocialismoCorrente que mantém a crítica marxista ao capital e rompe com as leituras produtivistas do próprio marxismo. Na formulação de Michael Löwy, une justiça social e defesa da natureza., em diálogo com os feminismos, particularmente o feminismo marxistaCorrente feminista que lê a opressão das mulheres a partir da economia política, com foco na reprodução da vida e no trabalho não pago. Silvia Federici é uma referência., o feminismo negroPerspectiva que mostra que gênero, raça e classe se cruzam na exploração. No artigo, aparece com Angela Davis. e o ecofeminismoCampo que liga a luta das mulheres à defesa da natureza e dos bens comuns, ao ver na exploração de ambas uma mesma lógica., oferece elementos fundamentais para pensar alternativas éticas e políticas orientadas pela defesa da vida, pela justiça social e pela preservação da natureza.
Metodologicamente, o ensaio adota a perspectiva crítico-dialéticaPerspectiva que lê os fenômenos sociais como expressões históricas de contradições estruturais, e não como fatos isolados., compreendendo os fenômenos sociais como expressões históricas das contradições estruturais do modo de produção capitalista, articulando categorias de alienaçãoEstranhamento das pessoas em relação ao próprio trabalho, aos outros e a si mesmas, produzido por relações sociais concretas, não por falha individual., ruptura metabólicaQuebra do intercâmbio entre sociedade e natureza quando ele passa a obedecer ao lucro e não às necessidades da vida. Conceito de John Bellamy Foster, a partir de Marx. e reprodução socialConjunto de práticas que produzem e mantêm a força de trabalho: cuidado, alimentação, criação, afeto. Não é função biológica, é organização histórica., fundamentado na proposta de Antônio Joaquim Severino (2014), articulando contribuições de Karl Marx, Michael Löwy, Silvia Federici, Angela Davis e Vandana Shiva. Ao mobilizar essas perspectivas, busca-se demonstrar que enfrentar as crises contemporâneas exige uma crítica radical às estruturas que produzem sofrimento, bem como a construção de novos horizontes civilizatórios capazes de recolocar a vida no centro do projeto social.
T.2 Capitalismo, alienação e adoecimento social
Pensar o suicídio fora de uma chave individualizante exige, antes de tudo, compreender que o capitalismo não organiza apenas a produção econômica, mas engloba toda a existência. Trata-se de um modo de produção que atravessa a vida cotidiana, as relações afetivas, o tempo, o corpo e a maneira como os sujeitos atribuem sentido à própria experiência. É nesse horizonte que Marx e Engels afirmam, em A ideologia alemã (1989), que os homens produzem a si mesmos ao produzirem suas condições materiais de vida, rompendo com qualquer tentativa de explicar o sofrimento humano a partir de uma consciência abstrata ou de desvios morais.
A maneira como os indivíduos manifestam sua vida reflete exatamente o que eles são. O que eles são coincide, pois, com sua produção, isto é, tanto com o que eles produzem quanto com a maneira como produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais de sua produção. (Marx; Engels, 1989, p. 13)
Essa formulação é central porque desloca o debate sobre o sofrimento para o campo das relações sociais concretas. A alienação, nesse sentido, não se limita ao trabalho assalariado, mas se estende à forma como os indivíduos se percebem, se relacionam e vivem o mundo social. O isolamento, a solidão e a sensação de inadequação não surgem como experiências privadas, mas como efeitos de uma sociabilidade fundada na competição, na desigualdade e na mercantilização da vida.
É justamente esse horizonte que atravessa o texto Sobre o suicídio (2023b). A escolha do livro como uma das bases centrais deste trabalho não parte de uma curiosidade marginal na obra de Marx, tampouco de um interesse episódico por um tema considerado "sensível". Parte, antes, da compreensão de que o suicídio aparece nesse texto como uma denúncia radical da sociedade burguesa e de seus efeitos concretos sobre a vida. Marx não escreve sobre o suicídio para explicar indivíduos, mas para expor uma sociedade que produz desespero como parte de seu funcionamento cotidiano.
Ao recorrer aos registros de Jacques Peuchet, Marx desloca deliberadamente o debate do campo moral e médico para o terreno da crítica social. O suicídio não é apresentado como desvio, fraqueza ou patologia, mas como resposta extrema a condições de vida marcadas por opressões silenciosas, violências naturalizadas e ausência de alternativas reais de existência. O que está em jogo não é o ato em si, mas o que ele revela sobre a organização da sociedade. Dessa forma, "O suicídio é significativo, tanto para Marx como para Peuchet, sobretudo como sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma transformação radical" (Löwy, 2023, p. 19)
Dessa forma, o livro de Marx ocupa um lugar estratégico neste trabalho. Ele permite compreender o adoecimento humano como parte de uma crise mais ampla da vida sob o capitalismo. Uma crise que não se limita ao trabalho, mas atravessa a família, o corpo, os afetos e as possibilidades de futuro. A vida, submetida à lógica da mercadoria, deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser algo que precisa constantemente se justificar. Ao analisar relatos concretos de suicídios ocorridos na sociedade burguesa do século XIX, Marx se distancia de leituras moralizantes ou patologizantes e expõe o caráter profundamente social desse fenômeno. O suicídio aparece como resposta extrema a uma vida que se tornou insuportável, marcada por opressões múltiplas e pela ausência de alternativas reais de existência.
Entre as causas do desespero que levam as pessoas muito nervosas-irritáveis a buscar a morte, seres passionais e melancólicos, descobri os maus-tratos como o fator dominante, as injustiças, os castigos secretos, que pais e superiores impiedosos infligem às pessoas que se encontram sob sua dependência. A Revolução não derrubou todas as tiranias; os males que se reprovavam nos poderes despóticos subsistem nas famílias; nelas eles provocam crises análogas àquelas das revoluções. (Marx, 2023b, p. 28-29, grifo do autor).
Essa leitura permite compreender o suicídio como expressão extrema do adoecimento social, isto é, como sintoma de uma forma histórica de organização da vida que transforma a existência humana em meio para a valorização do capital, esvaziando seu sentido enquanto fim em si mesma. Michael Löwy (2023), ao retomar esse texto, destaca sua impressionante atualidade. Para o autor, Marx antecipa uma crítica radical à modernidade capitalista ao revelar que o sofrimento psíquico e a autodestruição não são desvios, mas produtos necessários de uma sociedade fundada na exploração e na negação da dignidade humana (p.20).
Não obstante seus limites evidentes, esse pequeno e quase esquecido artigo do jovem Marx é uma preciosa contribuição a uma compreensão mais rica das injustiças sociais da moderna sociedade burguesa, do sofrimento que suas estruturas familiares patriarcais infligem às mulheres e do amplo e universal objetivo emancipador do socialismo. (Löwy, 2023, p. 22)
Ao trazer o suicídio para o centro da crítica social, Marx não oferece respostas fáceis, mas escancara os limites de uma sociedade que transforma a existência em sobrevivência. Retomar esse texto hoje significa afirmar que o sofrimento não é um problema individual a ser corrigido, mas uma questão política e estrutural. E é a partir dessa compreensão que se torna possível articular o adoecimento subjetivo às demais crises produzidas pelo capitalismo, entre elas a crise ambiental e as formas específicas de violência que recaem sobre as mulheres.
T.3 Crise ambiental e ruptura metabólica: a crise da vida sob o capital
Se o suicídio aparece, como visto anteriormente, como expressão extrema do adoecimento social, a crise ambiental pode ser compreendida como outra face dessa mesma lógica destrutiva. Não se trata de crises separadas, nem de fenômenos paralelos. A devastação da natureza e o sofrimento humano respondem à mesma racionalidade: um sistema que organiza a vida a partir da acumulação, do crescimento ilimitado e da mercantilização de tudo o que existe.
A partir da leitura de Marx, John Bellamy Foster (2005), recupera o conceito de metabolismo socialIntercâmbio material entre sociedade e natureza mediado pelo trabalho: os seres humanos transformam a natureza e, ao fazer isso, transformam a si mesmos. para explicar a relação material entre sociedade e natureza mediada pelo trabalho. Em Marx, esse metabolismo diz respeito ao intercâmbio vital por meio do qual os seres humanos, ao transformarem a natureza, também se transformam. No entanto, sob o capitalismo, esse processo deixa de obedecer às necessidades da vida e passa a ser subordinado às exigências do lucro, produzindo aquilo que Foster denomina ruptura metabólica.
A posição deles - que se tornou mais clara com a evolução dos seus escritos - era antes a de estimular uma relação sustentável entre os seres humanos e a natureza através da organização da produção de modos que levassem em consideração a relação metabólica entre os seres humanos e a terra. (Foster, 2005, p. 195).
Essa ruptura não é um efeito colateral do desenvolvimento capitalista, mas um de seus fundamentos. Ao separar cidade e campo, ao expropriar os nutrientes do solo, ao organizar a produção agrícola e industrial em função do mercado, o capitalismo rompe os ciclos naturais de regeneração e compromete as bases materiais da vida. Marx já havia identificado esse processo ao analisar a agricultura capitalista e seus efeitos destrutivos sobre a terra.
[...]E todo progresso da agricultura capitalista é um progresso na arte de saquear não só o trabalhador, mas também o solo, pois cada progresso alcançado no aumento da fertilidade do solo por certo período é ao mesmo tempo um progresso no esgotamento das fontes duradouras dessa fertilidade. Quanto mais um país, como os Estados Unidos da América do Norte, tem na grande indústria o ponto de partida de seu desenvolvimento, tanto mais rápido se mostra esse processo de destruição. Por isso, a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na medida em que solapa os mananciais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador. (Marx, 2023a, p. 573-574)
Essa passagem evidencia que a exploração da natureza e do trabalho integram um mesmo movimento histórico no capitalismo, no qual tanto o solo quanto o trabalhador são consumidos até a exaustão. A natureza deixa de ser reconhecida como condição da vida e passa a ser tratada como recurso disponível à apropriação e ao descarte. A crise ambiental, assim, expressa uma contradição estrutural de um sistema que subordina a vida à lógica do crescimento e da acumulação, produzindo impactos desiguais sobre as populações mais vulnerabilizadas.
Löwy (2014) define o ecossocialismo como uma corrente que retoma o núcleo crítico do marxismo, ao mesmo tempo em que rompe com suas leituras produtivistas e desenvolvimentistas. Não se trata de um "socialismo verde", tampouco de uma ecologia adaptada ao mercado, mas de uma crítica radical ao capitalismo enquanto modo de produção destrutivo da vida. Nesse sentido, o autor afirma: "Portanto, o que é o ecossocialismo? Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que faz suas as aquisições fundamentais do marxismo - ao mesmo tempo que o livra das suas escórias produtivistas." (Löwy, 2014, p. 41).
Essa incompatibilidade, entre o capitalismo e a ecologia, revela que propostas como o chamado "capitalismo verdeIdeia de que ajustes técnicos e compensações ambientais resolvem a crise ecológica sem mudar a lógica do lucro. O artigo o lê como contenção política." operam mais como estratégias de contenção política do que como respostas efetivas à crise ecológica. Ao prometer ajustes técnicos, compensações ambientais ou mudanças individuais de comportamento, tais propostas mantêm intactas as estruturas de exploração e ocultam o caráter sistêmico da destruição ambiental. O ecossocialismo, ao contrário, propõe uma transformação radical das relações sociais de produção e do modo como a humanidade se relaciona com a natureza. Trata-se de reorganizar a produção a partir das necessidades humanas reais e dos limites ecológicos do planeta, substituindo a lógica do lucro pela lógica da vida. Essa transformação implica não apenas uma crítica abstrata ao produtivismoIdeia de que o crescimento da produção é o objetivo central da sociedade, mesmo à custa do trabalho e da natureza. Löwy critica essa herança dentro do próprio marxismo., mas mudanças concretas na organização da vida cotidiana, especialmente nos sistemas de transporte, energia e produção urbana.
T.4 Feminismo marxista, corpo e reprodução da vida
A crítica marxiana ao suicídio, ao evidenciar a permanência das tiranias no interior da família burguesa, abre um campo fundamental de diálogo com o feminismo marxista. Ao afirmar que a Revolução não aboliu as opressões cotidianas, mas as deslocou para o espaço doméstico, Marx (2023b) antecipa uma problemática aprofundada pelas feministas: a centralidade da reprodução da vida como terreno privilegiado da dominação capitalista e patriarcal.
Silvia Federici, em Calibã e a bruxa (2024), demonstra que a consolidação do capitalismo envolveu não apenas a expropriação econômica, mas também o controle sistemático dos corpos, especialmente os das mulheres. A acumulação primitivaProcesso histórico de expropriação pelo qual o capitalismo nasceu: separa as pessoas da terra e dos meios de vida e as transforma em força de trabalho. implicou a destruição de formas comunitárias de vida e a imposição de uma divisão sexual do trabalhoDistribuição histórica de tarefas por gênero que naturalizou o trabalho de cuidado como destino das mulheres e o deixou sem salário. que naturalizou, invisibilizou e não remunerou o trabalho reprodutivoTrabalho de cuidar, alimentar, criar e manter a vida, que sustenta a força de trabalho mas quase nunca é pago nem reconhecido como trabalho. feminino. "Caçar as bruxas foi também fundamental para a construção de uma nova ordem patriarcal em que o corpo das mulheres, seu trabalho e seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos" (p. 313–314).
Ao deslocar a análise da acumulação primitiva para a posição social das mulheres e para a produção da força de trabalho, Federici explicita limites da análise marxiana clássica, centrada no proletariado assalariado masculino. Esse deslocamento teórico permite evidenciar dimensões estruturais da acumulação capitalista que permanecem secundarizadas quando a reprodução da vida é tratada como esfera marginal.
Contudo, minha análise se afasta da de Marx por duas vias distintas. Enquanto Marx examina a acumulação primitiva do ponto de vista do proletariado assalariado do sexo masculino e do desenvolvimento da produção de mercadorias, eu a examino do ponto de vista das mudanças que ela introduziu na posição social das mulheres e na produção da força de trabalho. (Federici, 2024 p. 34)
Segundo a autora, a violência não constitui uma etapa transitória do capitalismo, mas um elemento recorrente de sua expansão. A degradação das mulheres, a expropriação de territórios, a guerra e o saque não aparecem como resquícios arcaicos, mas como condições permanentes da reprodução do capital. O feminismo marxista contemporâneo sustenta que a crise do capitalismo é indissociável da crise da reprodução social. A reprodução, aqui, não se refere a uma função biológica, mas a um conjunto de práticas historicamente organizadas para garantir a produção e a manutenção da força de trabalho.
[...] se, na sociedade capitalista, a "feminilidade" foi construída como uma função-trabalho que oculta a produção da força de trabalho sob o disfarce de um destino biológico, a "história das mulheres" é a "história das classes", e a pergunta que devemos nos fazer é se se transcendeu a divisão sexual do trabalho que produziu esse conceito em particular. Se a resposta for negativa (tal como ocorre quando consideramos a organização atual do trabalho reprodutivo), então a "mulher" é uma categoria de análise legítima, e as atividades associadas à "reprodução" permanecem um terreno de luta fundamental para as mulheres – como eram para o movimento feminista dos anos 1970, que, nesse sentido, se relacionava com a história das bruxas. (Federici, 2024, p. 39)
Essa leitura articula o sofrimento subjetivo à organização material da vida, permitindo compreender o adoecimento não como efeito colateral, mas como resultado direto de um sistema que sustenta sua reprodução pela exaustão contínua dos corpos e dos territórios, subordinando a vida à lógica do valor.
Marx (2023b) analisa o suicídio a partir de diferentes posições de classe, evidenciando que o sofrimento social atravessa amplamente a sociedade, mas se intensifica quanto mais distantes os sujeitos se encontram de condições dignas de existência. As experiências de adoecimento, portanto, não se distribuem de maneira homogênea. Nesse sentido, a análise da reprodução da vida não pode partir de uma experiência feminina universal. A divisão histórica entre produção e reprodução opera de forma diferenciada conforme raça e classe. O ideal burguês da mulher confinada ao espaço doméstico refere-se fundamentalmente à experiência das mulheres brancas, enquanto, para as mulheres negras, marcadas pela escravidão e pelo colonialismoDomínio de um povo ou território por outro, com expropriação de terras, corpos e saberes. Na leitura do artigo, uma condição da expansão do capital., essa separação nunca se efetivou plenamente, pois seus corpos sempre foram mobilizados como força de trabalho produtiva e reprodutiva.
Essa diferenciação racial evidencia os limites de análises centradas na figura do trabalhador assalariado masculino ou no ideal burguês da domesticidade. Como demonstra Davis (2016), o trabalho sempre ocupou um lugar central e compulsório na vida das mulheres negras, o que exige referenciais específicos para compreender suas experiências de exploração no capitalismo.
Proporcionalmente, as mulheres negras sempre trabalharam mais fora de casa do que suas irmãs brancas. O enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres negras reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos da escravidão [...]. (Davis, 2016, p.24)
Ao analisar a escravidão, Davis demonstra que as mulheres negras foram sistematicamente reduzidas à condição de força de trabalho, tendo sua existência subordinada às exigências da produção. Diferentemente da ideologia da feminilidade construída no século XIX para as mulheres brancas, as mulheres negras eram tratadas prioritariamente como unidades produtivas. Como observa a autora: "A mulher escrava era, antes de tudo, uma trabalhadora em tempo integral para seu proprietário, e apenas ocasionalmente esposa, mãe e dona de casa." (Davis, 2016, p. 24). Essa condição revela que, no sistema escravista, gênero e trabalho operavam de forma instrumental, ora apagando o gênero, ora reduzindo essas mulheres à sua função reprodutiva.
Nesse contexto, a reprodução da vida assumiu contornos particularmente violentos. Com o fim do tráfico internacional, a capacidade reprodutiva das mulheres negras passou a ser apropriada como mecanismo de ampliação da força de trabalho, e não reconhecida como experiência materna. A reprodução aparece, assim, como parte central da engrenagem de exploração capitalista e racial.
Dessa forma, Davis amplia a crítica de Federici ao demonstrar que a violência não recua com o amadurecimento do capitalismo, mas permanece como elemento constitutivo da reprodução da força de trabalho. A análise da reprodução social, portanto, exige considerar a articulação entre raça, gênero e classe na produção do sofrimento e da negação sistemática da dignidade humana, que recaem de maneira desproporcional sobre as mulheres negras.
T.5 Vandana Shiva, ecofeminismo e a defesa da vida
Embora Vandana Shiva não se identifique como marxista, sua obra dialoga diretamente com críticas estruturais ao capitalismo, especialmente no que se refere à mercantilização da natureza e à violência colonial. Em Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos, a autora se insere no campo do ecofeminismo ao articular a defesa da biodiversidade à luta das mulheres e dos povos camponeses, compreendendo a crise ambiental como consequência direta de um modelo econômico que subordina a vida à lógica do lucro (Shiva, 2024).
Nesse contexto, Shiva analisa como a financeirização da agriculturaQuando a produção agrícola passa a depender de crédito, dívida e insumos comprados, e o agricultor fica preso ao mercado financeiro., a imposição de sementes patenteadas e o endividamento compulsório produziram sofrimento extremo no campo indiano, culminando em uma onda de suicídios de agricultores, fenômeno que a autora interpreta como expressão de uma violência estrutural.
As estratégias de reprodução empresarial e industrial não só são incapazes de lidar com as mudanças climáticas, como as sementes geneticamente modificadas estão matando os agricultores. Na Índia, milhares de agricultores cometeram suicídio em razão de dívidas causadas pelos altos custos e pelas sementes não confiáveis que são vendidas pelas grandes corporações. Os suicídios concentram-se em áreas que se tornaram dependentes de sementes comerciais e são mais intensos onde o algodão Bt (geneticamente modificado) foi vendido. Essas sementes são sementes do suicídio e da escravidão. Não há suicídios onde os agricultores usam sementes ancestrais e variedades tradicionais. (Shiva, 2024, p. 24)
A relevância desse relato reside no fato de que Shiva não compreende o suicídio como acontecimento isolado ou fragilidade individual, mas como expressão extrema de uma violência estrutural do capitalismo agrário. Assim como em Marx (2023), o suicídio aparece como sintoma de um sistema que retira dos sujeitos as condições materiais e sociais de existência, cujos efeitos não se encerram no ato suicida.
Embora muitas das vítimas diretas sejam homens agricultores, são as mulheres (esposas, mães e companheiras) que permanecem arcando com as consequências materiais, emocionais e sociais do colapso, como o endividamento, a insegurança alimentar e a continuidade do trabalho no campo. Mesmo quando não são levadas ao suicídio, elas sofrem de forma prolongada e estrutural os efeitos de um sistema que destrói as bases da vida, evidenciando a imbricação entre crise ambiental, crise da reprodução social e sofrimento psíquico.
O ecofeminismo de Vandana Shiva contribui para este trabalho ao evidenciar que a exploração da natureza e da vida humana obedecem à mesma racionalidade. A destruição dos bens comunsRecursos compartilhados por uma comunidade, como sementes, água e florestas, que não deveriam ser propriedade privada de ninguém. e a mercantilização das sementes recaem de forma particular sobre as mulheres, que historicamente sustentam a reprodução da vida. Ainda que parta de um referencial distinto do marxismo clássico, sua obra converge com a crítica ecossocialista ao afirmar que defender a vida exige enfrentar as estruturas econômicas que produzem morte, adoecimento e despossessão.
Essa centralidade das mulheres manifesta-se de forma concreta em experiências de resistência como o Movimento ChipkoMovimento de mulheres camponesas na Índia, iniciado nos anos 1970, que abraçavam as árvores para impedir o desmatamento e defender as condições de vida das comunidades., iniciado na Índia na década de 1970, no qual mulheres camponesas se organizaram para impedir o desmatamento, defendendo simultaneamente as florestas e as condições materiais de existência de suas comunidades. O Chipko expressa, assim, o ecofeminismo como prática política, no qual a defesa da natureza emerge como defesa da vida em sua totalidade.
Dessa forma, ao articular a crítica marxiana ao suicídio, a noção de ruptura metabólica e a centralidade da reprodução da vida, o ecossocialismo permite compreender o suicídio como expressão extrema de uma crise civilizatória que subordina a vida humana e a natureza à lógica do capital.
T.6 Considerações finais
Este trabalho partiu da crítica marxiana ao suicídio para compreendê-lo não como fenômeno individual, mas como expressão social das contradições estruturais do capitalismo. Ao evidenciar que a violência produzida pelo sistema atravessa diferentes posições de classe, Marx (2023b) possibilita compreender o suicídio como sintoma de uma organização social que nega as condições históricas de reprodução da vida.
A incorporação do feminismo marxista, especialmente a partir de Silvia Federici (2024), aprofundou essa análise ao deslocar o foco da produção para a reprodução da vida, demonstrando que a exploração capitalista se sustenta também pela naturalização e invisibilização do trabalho reprodutivo feminino. A introdução do feminismo negro, a partir de Angela Davis (2016), evidenciou que essa exploração opera de forma racializada, exigindo considerar raça e classe como dimensões constitutivas da reprodução capitalista.
A aproximação com o ecofeminismo de Vandana Shiva (2024) permitiu articular sofrimento social, crise ambiental e reprodução da vida, evidenciando que a destruição das condições materiais de existência produz desespero extremo e afeta de maneira prolongada as mulheres que sustentam a vida em contextos de colapso ecológico e endividamento estrutural. Assim, o suicídio aparece não como evento isolado, mas como expressão limite de uma racionalidade que subordina a vida humana e não humana às exigências da acumulação.
O deslocamento interpretativo proposto por este ensaio consiste em retirar o suicídio do campo psicologizante ou estritamente individualizante e reinscrevê-lo no interior da crítica da economia política, articulando-o à ruptura metabólica e à crise da reprodução social. Ao relacionar autodestruição, devastação ambiental e exploração dos corpos e territórios, o texto evidencia que tais fenômenos não são crises paralelas, mas dimensões de uma mesma crise civilizatória fundada na primazia do valor sobre a vida.
Nesse sentido, a articulação entre marxismo, feminismo marxista, feminismo negro e ecofeminismo não apenas amplia a compreensão do sofrimento social, mas contribui para recolocar a vida, humana e não humana, como princípio normativo da organização social. Enfrentar essa crise exige mais do que respostas técnicas ou soluções individuais, demandando uma reorganização radical das formas de produzir, reproduzir e existir. Nesse horizonte, o ecossocialismo emerge, em diálogo com os feminismos, como projeto ético-político orientado pela defesa incondicional da vida.
1 Situação
Este caderno acompanha o artigo acima, publicado nos Anais do XV Encontro de Grupos de Estudos e Pesquisas Marxistas (EPMARX), UNIFAL-MG, p. 41-54. Leia o artigo e siga pelos nove itens de estudo, na ordem ou como preferir.
1.1 A situação
Quando alguém tira a própria vida, a conversa pública quase sempre vai para dentro da pessoa: o que ela sentia, o que não contou, o que poderia ter feito diferente. Quando uma floresta queima ou uma cidade alaga, a conversa vai para fora: o clima, a chuva, o azar.
Dois fenômenos que parecem não ter nada em comum. Um é tratado como drama íntimo; o outro, como acidente da natureza. O artigo propõe olhar os dois a partir do mesmo lugar: a forma como a sociedade organiza a produção da vida.
Não se trata de negar o sofrimento de cada pessoa, nem de reduzir a crise ecológica a uma frase. Trata-se de perguntar o que fica escondido quando explicamos tudo pelo indivíduo ou pelo acaso.
2 Pergunta
2.1 A pergunta central
O que o suicídio e a devastação ambiental revelam sobre uma sociedade que subordina a vida à lógica do valor?
Guarde esta pergunta. No fim do caderno você vai voltar a ela com a sua própria resposta, que pode concordar com o artigo, discordar dele ou ficar no meio do caminho.
2.2 Antes de seguir
Anote, em duas ou três linhas, o que você responderia agora, antes de ler o artigo. No item 9 você vai comparar essa primeira resposta com a final.
3 Contexto
3.1 Leia o artigo
Este é o momento de ler o texto completo, que está na primeira seção desta página, “Texto do artigo”, e na íntegra no link oficial do evento (cerca de 40 minutos). Os termos sublinhados no texto abrem o Atlas e explicam o conceito. O texto é um ensaio teórico de base crítico-dialética, apresentado no XV EPMARX, em Alfenas, em dezembro de 2025. Ele não traz dados novos: costura autores para construir uma leitura. O argumento anda em quatro movimentos.
3.2 Alienação e adoecimento social
O capitalismo organiza a vida inteira, não só a fábrica. Em Sobre o suicídio, Marx usa os registros do arquivista policial Jacques Peuchet para tirar o tema do campo moral e médico e colocá-lo na crítica da sociedade burguesa, inclusive da tirania dentro da família.
Autores: Marx e Engels, Marx, Löwy.
3.3 Ruptura metabólica
A mesma lógica que esgota as pessoas esgota o solo. Com Foster, o texto recupera o conceito de metabolismo social em Marx e mostra como o lucro rompe os ciclos de regeneração da natureza. O "capitalismo verde" aparece como contenção política, sem tocar na estrutura.
Autores: Foster, Marx, Löwy.
3.4 Corpo e reprodução da vida
Federici desloca o olhar para o trabalho reprodutivo das mulheres e para o controle dos corpos na acumulação primitiva. Davis mostra que a separação entre produção e reprodução nunca valeu para as mulheres negras escravizadas, tratadas antes de tudo como força de trabalho.
Autoras: Federici, Davis.
3.5 Ecofeminismo e defesa da vida
Vandana Shiva, que não se declara marxista, liga a mercantilização das sementes e o endividamento aos suicídios de agricultores na Índia, e mostra que são as mulheres que seguem sustentando a vida depois do colapso. O Movimento Chipko aparece como prática política.
Autora: Shiva.
3.6 Conclusão do texto
Suicídio, devastação ambiental e exploração dos corpos são dimensões de uma mesma crise civilizatória. O ecossocialismo, em diálogo com os feminismos, é apresentado como projeto ético-político de defesa da vida.
3.7 Conceitos para ter à mão
- Alienação: estranhamento das pessoas em relação ao próprio trabalho, aos outros e a si mesmas, produzido por relações sociais concretas.
- Adoecimento social: sofrimento que nasce da forma de organização da sociedade e se manifesta nos indivíduos.
- Metabolismo social: intercâmbio material entre sociedade e natureza mediado pelo trabalho.
- Ruptura metabólica: quebra desse intercâmbio quando ele passa a obedecer ao lucro e não às necessidades da vida.
- Ecossocialismo: corrente que mantém a crítica marxista ao capital e rompe com as leituras produtivistas do próprio marxismo (Löwy).
- Reprodução social: conjunto de práticas que produzem e mantêm a força de trabalho: cuidado, alimentação, criação, afeto.
- Divisão sexual do trabalho: distribuição histórica de tarefas por gênero que naturalizou e deixou sem salário o trabalho reprodutivo.
- Ecofeminismo: campo que articula a luta das mulheres à defesa da natureza e dos bens comuns.
4 Disputas
Nenhum autor fecha o debate. Abaixo estão leituras que cruzam com o artigo, algumas concordando em parte, outras discordando. Leia cada uma e responda à pergunta em itálico.
4.1 Émile Durkheim, 1897
Também tratou o suicídio como fato social, com taxas que variam conforme a integração e a regulação da sociedade (o suicídio anômico, por exemplo). Mas explica pela coesão social, não pela exploração de classe.
Anomia e alienação descrevem o mesmo fenômeno com nomes diferentes, ou apontam causas diferentes?
4.2 Saúde pública e clínica
A Organização Mundial da Saúde trata o suicídio como fenômeno de muitos fatores, em que sofrimento psíquico e transtornos mentais pesam, ao lado de fatores sociais. A prevenção inclui cuidado em saúde mental, acesso a serviços e comunicação responsável.
Tirar o suicídio do campo "psicologizante" significa recusar o cuidado clínico, ou exigir que ele venha junto com mudanças nas condições de vida?
4.3 Michael Löwy, sobre o próprio Marx
Löwy valoriza o texto, mas fala em "limites evidentes". Sobre o suicídio é, em boa parte, tradução comentada de Peuchet, escrita pelo jovem Marx.
Que limites seriam esses? O que um texto de 1846 consegue e não consegue explicar sobre o século XXI?
4.4 O debate sobre o algodão Bt na Índia
A tese de Shiva é contestada. Gruère e Sengupta (2011) e Plewis (2014) não encontraram evidência de que o algodão transgênico tenha provocado aumento de suicídios de agricultores. Gutierrez e colegas (2015) argumentam o contrário para o algodão plantado sem irrigação. A crise agrária e o endividamento são reconhecidos dos dois lados.
O argumento do artigo depende da causalidade direta da semente, ou se sustenta na crise agrária e na dívida?
4.5 Bina Agarwal, 1992
Critica o ecofeminismo de Shiva por tratar a relação mulher e natureza como algo quase essencial e por falar das "mulheres indianas" como um bloco. Propõe olhar a relação material: quem trabalha a terra, quem tem acesso a ela, quem decide.
A centralidade das mulheres na defesa da vida é uma condição histórica de trabalho ou uma natureza? Que diferença isso faz para a luta?
4.6 Antes de concluir
O NEXO tem uma leitura ecossocialista, e esta autora também. Isso não te obriga a concordar. Não aceite esta leitura só porque o NEXO publicou: compare, procure quem discorda e decida.
4.7 Referências deste item
- AGARWAL, Bina. The gender and environment debate: lessons from India. Feminist Studies, v. 18, n. 1, p. 119-158, 1992.
- DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
- GRUÈRE, Guillaume; SENGUPTA, Debdatta. Bt cotton and farmer suicides in India: an evidence-based assessment. Journal of Development Studies, v. 47, n. 2, p. 316-337, 2011.
- GUTIERREZ, Andrew Paul et al. Deconstructing Indian cotton: weather, yields, and suicides. Environmental Sciences Europe, v. 27, n. 12, 2015.
- LÖWY, Michael. Marx, esse desconhecido. São Paulo: Boitempo, 2023.
- PLEWIS, Ian. Indian farmer suicides: is GM cotton to blame? Significance, v. 11, n. 1, p. 14-18, 2014.
5 Interesses
Toda explicação de um problema distribui responsabilidades. Por isso vale perguntar a quem cada explicação serve. Responda por escrito antes de seguir.
- Quando o sofrimento é explicado só como problema individual, quem fica dispensado de mudar alguma coisa?
- Que mercados crescem em torno do sofrimento tratado como questão privada?
- Quando uma empresa anuncia compensação de carbono, quem paga pelo dano que continua acontecendo, e onde?
- Quem perde quando as sementes passam a ser patenteadas? Quem ganha?
- E a explicação estrutural: ela também pode ser usada de modo a apagar a pessoa concreta que sofre? Como evitar isso?
6 Evidências
Um ensaio teórico trabalha com conceitos e com a leitura de obras. Ele pode conter fatos, interpretações e afirmações empíricas que pedem dados. Separar uma coisa da outra é parte da leitura crítica.
6.1 Classifique cada frase
Para cada frase retirada do artigo, decida: é um fato verificável, uma interpretação teórica ou uma afirmação empírica em disputa? Anote sua resposta antes de olhar o gabarito.
1. Marx escreveu Sobre o suicídio a partir dos registros do arquivista Jacques Peuchet.
2. O suicídio é sintoma de uma sociedade doente, que necessita de uma mudança radical.
3. Na Índia, os suicídios de agricultores são mais intensos onde o algodão Bt foi vendido.
4. O capitalismo verde opera mais como estratégia de contenção política do que como resposta à crise ecológica.
5. O Movimento Chipko começou na Índia nos anos 1970, com mulheres camponesas que se organizaram contra o desmatamento.
6.2 Para testar a tese no Brasil
Seria preciso ir aos dados. O Sistema de Informações sobre Mortalidade (DATASUS) registra óbitos por região, sexo, idade e ocupação. Que cruzamentos você faria com dados de trabalho, renda, território e meio ambiente?
6.3 Gabarito
1. Fato verificável. É um dado sobre a obra, que pode ser conferido no próprio livro.
2. Interpretação teórica. É a tese que Löwy lê em Marx. Pode ser defendida com argumentos, mas não se prova com um único dado.
3. Afirmação empírica em disputa. Depende de dados, e os estudos chegam a conclusões diferentes (veja o item 4).
4. Interpretação teórica. É uma leitura do artigo, sustentada por Löwy. Quem discorda precisaria mostrar resultados concretos dessas políticas.
5. Fato verificável. É um fato histórico documentado.
7 Ferramenta Raio-X
Aplique as perguntas do Raio-X a um caso. O caso abaixo é um exemplo criado para este caderno; depois, troque por uma notícia real da sua cidade.
7.1 Caso de exemplo
Uma rede de supermercados lança a campanha "Equipe que se cuida": aplicativo de meditação grátis para os funcionários e um selo de "empresa carbono neutro" nas sacolas. No mesmo trimestre, as metas por caixa aumentam 20% e a jornada de domingo passa a ser obrigatória.
7.2 As oito perguntas
1. O que está sendo dito?
2. Quem está dizendo, e de que lugar?
3. Como sabemos? Que evidência sustenta a mensagem?
4. Quem ganha com essa forma de apresentar o problema?
5. Quem perde ou paga a conta?
6. O que não está sendo dito?
7. Existe outra explicação possível?
8. O que você conclui, e por quê?
8 Exercício
8.1 Compreensão
Responda antes de olhar o gabarito no fim desta seção.
1. Por que Marx recorre aos registros de Peuchet?
a) Para provar que o suicídio é uma doença hereditária
b) Para deslocar o tema do campo moral e médico para a crítica social
c) Para defender a moral religiosa da época
d) Para elogiar a família burguesa
2. No artigo, o que é a ruptura metabólica?
a) O fim natural dos recursos do planeta
b) Uma doença causada pela poluição
c) A subordinação do intercâmbio entre sociedade e natureza ao lucro, que rompe os ciclos de regeneração
d) Um conceito criado por Vandana Shiva
3. O que Silvia Federici acrescenta à análise?
a) A centralidade do trabalho reprodutivo das mulheres e do controle dos corpos na acumulação capitalista
b) A defesa do capitalismo verde
c) A ideia de que o suicídio é escolha individual
d) Uma crítica ao conceito de metabolismo
4. Em que ponto Angela Davis complica a leitura sobre reprodução?
a) Ao afirmar que todas as mulheres viveram a mesma opressão
b) Ao mostrar que, para as mulheres negras escravizadas, a separação entre produção e reprodução nunca se efetivou
c) Ao rejeitar o conceito de classe
d) Ao defender o ideal da mulher doméstica
5. Por que o artigo considera o capitalismo verde insuficiente?
a) Porque é caro demais
b) Porque ainda não foi testado
c) Porque propõe ajustes técnicos e compensações que mantêm intactas as estruturas de exploração
d) Porque proíbe mudanças de comportamento individual
8.2 Análise
- Explique com suas palavras por que o artigo trata o suicídio e a crise ambiental como "uma mesma crise".
- Que diferença Angela Davis faz no argumento de Federici? Dê um exemplo da história brasileira.
- Escolha uma das disputas do item 4 e escreva um parágrafo respondendo à pergunta em itálico.
8.3 Aplicação no território
Em grupo, mapeiem onde, no município de vocês, crise ambiental e condições de trabalho se encontram: uso de agrotóxicos, enchentes, calor nas periferias, jornadas exaustivas, endividamento. O foco é o território e as estruturas, nunca casos individuais de pessoas.
8.4 Para quem vai usar em sala
- Avise a turma do tema antes da aula e deixe o contato do CVV (188) visível.
- Discuta estruturas, conceitos e dados agregados. Não peça relatos pessoais, não comente casos de pessoas conhecidas e não descreva métodos.
- Evite palavras que romantizam ou culpabilizam. Prefira "morte por suicídio" a "cometeu suicídio".
- Combine com a coordenação ou o serviço de apoio da escola um caminho para estudantes que pedirem ajuda depois da aula.
- Material de apoio: Suicídio: informando para prevenir (CFM e ABP, 2014).
8.5 Gabarito da compreensão
1. b · 2. c · 3. a · 4. b · 5. c
9 Decisão
9.1 Volte à pergunta
O que o suicídio e a devastação ambiental revelam sobre uma sociedade que subordina a vida à lógica do valor?
Compare com o que você anotou no item 2. O que mudou? Você concorda com o artigo, em que ponto discorda, o que ficou em aberto? Escreva a sua resposta final num caderno ou documento seu. Se estuda em grupo, comparem as respostas.
9.2 Referências do artigo
- DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
- FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2024.
- FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
- LÖWY, Michael. Marx, esse desconhecido. São Paulo: Boitempo, 2023.
- LÖWY, Michael. O que é ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2014.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
- MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2023.
- MARX, Karl. Sobre o suicídio. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2023.
- SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 24. ed. São Paulo: Cortez, 2014.
- SHIVA, Vandana. Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos. São Paulo: Boitempo, 2024.
Referências
- DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
- FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2024.
- FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
- LÖWY, Michael. Marx, esse desconhecido. São Paulo: Boitempo, 2023.
- LÖWY, Michael. O que é ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2014.
- MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad. Luis Claudio de Castro e Costa et al. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
- MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2023a.
- MARX, Karl. Sobre o suicídio. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2023b.
- SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 24. ed. São Paulo: Cortez, 2014.
- SHIVA, Vandana. Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos. São Paulo: Boitempo, 2024.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. Capitalismo, suicídio e crise ambiental. Revista NEXO, v. 1, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). Capitalismo, suicídio e crise ambiental. Revista NEXO, 1.
