A globalização nunca foi tão perversa: Milton Santos alertou
Resumo
Entender o mundo atual exige revisitar alguns conceitos, e um deles é o de globalização. Talvez Milton Santos tenha sido o autor que mais contribuiu para explicar esse fenômeno, não como conceito em si, mas como um alerta. Um dos principais geógrafos do Brasil e da Geografia crítica mundial, ele é um teórico decisivo para compreender as dinâmicas da globalização atual, na era dos processos informacionais, dos algoritmos e da financeirização da economia.
Palavras-chave: Milton Santos; Globalização; Meio técnico-científico-informacional.
Um pouco de Milton Santos
Milton Santos foi um geógrafo baiano e um dos grandes autores brasileiros das ciências humanas. Foi um dos maiores geógrafos do Brasil, com contribuições significativas no campo epistemológico da própria Geografia, mas também no desenvolvimento da compreensão da urbanização no Brasil e na sistematização de uma Geografia crítica. Além disso, desenvolveu conceitos como meio técnico-científico-informacional, tecnosfera e psicosfera, que contribuem para a compreensão da própria globalização.
Formado em Direito, doutorou-se em Geografia em Estrasburgo e, durante o exílio imposto pela ditadura (1964 a 1977), lecionou na França, na África, no Canadá e nos Estados Unidos antes de se fixar na USP. Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da Geografia, sendo até hoje o único latino-americano a conquistá-lo.
Temas centrais de sua obra
Sua contribuição central é retirar o espaço da condição de palco e tratá-lo como instância social: o espaço é “um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações” (SANTOS, 1996). Objetos técnicos e ações humanas se produzem mutuamente e, por isso, o espaço carrega tempo, poder e desigualdade. Daí conceitos como meio técnico-científico-informacional, utilizado para nomear o período atual, em que ciência, técnica e informação organizam o território a serviço do capital global, e a distinção entre verticalidades, as ordens que vêm de fora, dos mercados e das grandes empresas, e horizontalidades, a vida de relações de proximidade e o cotidiano compartilhado.
Para entender sua obra, é necessário começar pelo estudo da técnica. A técnica é uma criação humana que introduz modificações no espaço geográfico. O próprio espaço geográfico constitui, nesse sentido, um meio técnico, dotado de artefatos e objetos. O meio técnico é criado com intencionalidades e funções que, ao encontrar na ciência um nível de racionalização comandado pela economia e pelo mercado, produz arranjos espaciais cada vez mais artificializados, dirigidos por lógicas externas ao lugar.
Essa interpretação é fundamental em sua obra, pois sua sistematização articula uma série de conceitos até chegar à ideia basilar de meio técnico-científico-informacional, no qual a informação passa a ser, ela mesma, parte das transformações técnicas e científicas que conferem dinamicidade e fluidez aos fluxos financeiros, ao comércio e à produção de um espaço desigual. Esse espaço agrega, por meio dos objetos técnicos, um conjunto de sistemas necessários à circulação da informação e à complexa dinâmica das redes geográficas. Como resultado desse processo, a globalização se acentua e se expande, aprofundando, dialeticamente, a própria produção desigual do espaço, incorporando contradições, avanços e resistências em um processo de coexistência de ritmos e tempos.
A compreensão da globalização em Milton Santos
Em Por uma outra globalização (2000), Santos distingue a globalização como fábula (o discurso), como perversidade (o que de fato acontece: desemprego, pobreza e concentração) e como possibilidade (outra globalização, feita “de baixo”, pelos pobres e pelos lugares). É também dele a ideia de que os pobres são aqueles que vivem o tempo lento do lugar e, por isso, guardam a criatividade capaz de produzir alternativas.
Mais de duas décadas depois de sua morte, deparamo-nos com uma aceleração cada vez mais intensa da informação. Por meio das inteligências artificiais, das redes comunicacionais e dos algoritmos, mineramos dados de sujeitos integrados a essa rede hegemônica da informação. Produzimos, simultaneamente, o artifício do mundo atual e contribuímos para o avanço do monopólio da informação, concentrada em pequenos grupos hegemônicos que coordenam as redes de negócios e sequestram os usos do território.
Em um mundo cuja aceleração compõe o cotidiano, nunca estivemos tão distantes, perdidos na individualidade e permeados por contradições que sobrepõem espaços e tempos. Nesse contexto, a intencionalidade dada aos sistemas de objetos criados para cumprir seus papéis bem definidos na economia globalizada explica a perversidade da atualidade, que extrapola as escalas e as fronteiras, mas aprisiona as mentes. As ideias críticas de Milton Santos continuam, portanto, fundamentais e convidativas para compreender o mundo de hoje.
Referências
- SANTOS, Milton. *O espaço dividido*: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.
- SANTOS, Milton. *A natureza do espaço*: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
- SANTOS, Milton. *Por uma outra globalização*: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.
Como citar este artigo
DANTAS, Jhonatan dos Santos. A globalização nunca foi tão perversa: Milton Santos alertou. Revista NEXO, v. 1, e0013, 2026. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.23195464.
Dantas, J. D. S. (2026). A globalização nunca foi tão perversa: Milton Santos alertou. Revista NEXO, 1, Article e0013. https://doi.org/10.5281/zenodo.23195464
