O golpe contra Paulo Freire
O que não contam sobre Paulo Freire · Módulo 4
Um decreto na véspera
O golpe militar começou a se consolidar entre 31 de março e 1º de abril de 1964, com a deposição de João Goulart. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu a presidência interina no dia 2 de abril, já sob controle militar. Foi esse governo de transição, faltando apenas dias para a posse oficial do general Castelo Branco, que assinou o Decreto nº 53.886, em 14 de abril de 1964, véspera da posse de Castelo Branco em 15 de abril, revogando por completo o Plano Nacional de Alfabetização.
A justificativa oficial dizia que o material didático continha "ideias subversivas" e não preservava "as instituições e tradições do nosso povo". Na prática, o que incomodava era exatamente o que fazia o método funcionar: ensinar alguém a ler a partir da própria realidade social tende a fazer essa pessoa questionar por que aquela realidade é como é.
"Engordando cascavéis no sertão"
O general Humberto Castelo Branco, que assumiria a presidência dias depois, teria reagido ao trabalho de Freire com uma frase que ficou registrada em relatos posteriores: "vocês estão engordando cascavéis nesse sertão". Vale a ressalva: é uma frase atribuída, relatada por fontes jornalísticas, não uma citação documentada em ata oficial, mas ela resume bem o diagnóstico do regime sobre o que representava alfabetizar em massa com um método que também formava consciência crítica.
A prisão e os anos fora
Dois meses depois do decreto, em 16 de junho de 1964, Paulo Freire foi preso, acusado de ser "subversivo e ignorante". Ficou detido por cerca de 70 dias. Ao sair, partiu para o exílio: primeiro rapidamente pela Bolívia, depois cinco anos no Chile, entre 1964 e 1969, onde escreveria o livro que o tornaria conhecido mundialmente, Pedagogia do Oprimido, publicado em 1968. Passou ainda por um período como professor visitante em Harvard, em 1969, e se mudou para a Suíça em 1970, como consultor educacional do Conselho Mundial de Igrejas, cargo que o levou a assessorar programas de alfabetização em mais de 30 países, incluindo nações africanas recém-independentes como Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
Só voltou ao Brasil no início dos anos 1980, depois da Lei da Anistia. Tinha saído aos 42 anos. Voltou perto dos 60.
O que o cancelamento não conseguiu apagar
O paradoxo histórico é que a perseguição não interrompeu o pensamento de Freire, ela o obrigou a sistematizá-lo. Foi no exílio, longe do Brasil e sem programa de governo pra coordenar, que ele escreveu a obra que se tornaria a mais citada da educação brasileira em qualquer lugar do mundo. O plano que a ditadura cancelou nunca foi retomado na escala original, mas o método que o sustentava sobreviveu, e é sobre esse segundo capítulo que fala o módulo final deste curso.
Referências
- CNTE-CUT. 14 de abril de 1964: não a Paulo Freire. Disponível em: https://cnte.org.br/artigos/14-de-abril-de-1964-nao-a-paulo-freire-b9c2. Acesso em: 23 jul. 2026.
- BRASIL DE FATO. A ditadura estragou esse país: como o golpe interrompeu as ideias de Paulo Freire para a educação. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/04/02/a-ditadura-estragou-esse-pais-como-o-golpe-interrompeu-as-ideias-de-paulo-freire-para-a-educacao/. Acesso em: 23 jul. 2026.
- INSTITUTO PAULO FREIRE. Biografia. Disponível em: https://paulofreire.org/biografia. Acesso em: 23 jul. 2026.
Como citar este artigo
LUZ, Laís Machado Ribeiro. O golpe contra Paulo Freire. Revista NEXO, 2026.
Luz, L. M. R. (2026). O golpe contra Paulo Freire. Revista NEXO, .