Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 4
As cenas de cadeia de Estômago não foram filmadas num estúdio construído para parecer uma prisão. Foram filmadas dentro do Presídio do Ahú, uma unidade prisional desativada em Curitiba. Mais do que isso, a produção usou objetos pessoais deixados por ex-detentos como adereços de cena, ao invés de peças compradas ou fabricadas para a filmagem. O resultado é uma textura difícil de fingir: paredes, luz e objetos que carregam o desgaste real de anos de uso.
Para dar consistência ao comportamento e à rotina dentro da cadeia, a produção contratou Luís Mendes Jr. como consultor. Mendes Jr. passou 30 anos preso antes de se tornar escritor, e trouxe pro set um conhecimento de primeira mão sobre hierarquia, rotina e comportamento carcerário que nenhuma pesquisa de gabinete substituiria.
Essa escolha de produção conversa direto com uma leitura acadêmica do filme. Um artigo publicado na Revista Temas em Educação (UFPB) usa o conceito de instituição total, do sociólogo Erving Goffman, pra descrever como a prisão em Estômago funciona: um ambiente fechado onde identidades são desmontadas e reconstruídas a partir de zero, e onde um novo tipo de prestígio, nesse caso o talento culinário de Nonato, pode reorganizar completamente a posição de alguém dentro da hierarquia do lugar. A pesquisa nota que Nonato, ao subir de posição na cozinha do presídio, adota uma nova máscara social a cada degrau, do mesmo jeito que fez do lado de fora, no restaurante.
Sem esse compromisso com o realismo, a virada do filme, mostrar que a cadeia reproduz exatamente as mesmas dinâmicas de poder do restaurante lá fora, perderia força. É a textura documental dessas cenas, o presídio de verdade, os objetos de verdade, a experiência de vida real do consultor, que sustenta visualmente uma ideia que também é literária: poder é poder, dentro ou fora dos muros.