Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 7
Este módulo conta o final do filme com detalhes, incluindo a cena mais pesada de Estômago. Se você ainda não assistiu e prefere descobrir sozinho, esse é o momento de pausar a leitura.
Bem antes do desfecho, Giovanni, dono do restaurante onde Nonato trabalha, ensina uma lição de cozinha comparando o corte de filé mignon à melhor parte da carne de uma mulher. É dito como piada, do tipo que circula em qualquer cozinha profissional. O filme guarda essa frase por quase toda sua duração, até ela voltar, no final, da forma mais literal e perturbadora possível.
Nonato descobre Íria (Fabíula Nascimento), a mulher por quem está apaixonado, e Giovanni se beijando na boca. O detalhe importa: ao longo do filme, Íria deixa claro que beijar na boca é o único ato que ela nunca faria por dinheiro, o limite que ela reserva só para quem realmente ama. Ver justamente esse gesto sendo trocado com Giovanni é, para Nonato, a prova definitiva da traição, mais forte do que qualquer ciúme comum. Ele mata os dois, e cozinha parte do corpo de Íria para comer.
Até esse momento, o título parece se referir só à profissão de Nonato, e ao apetite como motor de sobrevivência e ambição. A cena final rebaixa, ou aprofunda, dependendo do ponto de vista, esse sentido: o estômago deixa de ser metáfora de fome material e passa a ser, literalmente, o destino de tudo que Nonato desejou ao longo da história. Fome, ciúme, ambição e vingança são tratados, na cena final, como manifestações de uma única fome maior, sem distinção entre elas.
O filme não amacia essa cena com explicações psicológicas fáceis, nem oferece redenção pro personagem depois disso. É uma escolha de roteiro deliberadamente desconfortável, que empurra a fábula sobre poder do início da história pro território do horror íntimo. O módulo 8 desta trilha explora uma camada dessa cena que quase nenhuma resenha do filme menciona, e que muda completamente como esse final pode ser lido.