Coleção Parasita · Trilha 1 · Módulo 12
No início dos anos 1990, ainda universitário, Bong Joon-ho trabalhou como tutor particular de matemática para o filho de uma família muito rica em Seul. Foi indicado para a vaga pela namorada da época, hoje sua esposa, que já dava aulas de inglês ao mesmo garoto. Bong foi demitido depois de dois meses. Esse contato íntimo e ao mesmo tempo estranho com o espaço doméstico de uma família rica é citado por ele, em pelo menos quatro entrevistas diferentes, como a semente de tudo que viria a se tornar Parasita.
Bong afirmou publicamente ter se inspirado também em A Governanta (1960), clássico do cinema coreano dirigido por Kim Ki-young, e no caso real das irmãs Christine e Léa Papin, empregadas domésticas francesas que assassinaram seus patrões em 1933. Nenhuma das duas referências é uma cópia direta da trama, mas ambas alimentam o mesmo território temático: o que pode acontecer quando a proximidade forçada entre quem serve e quem é servido se rompe.
A ideia começou a ser desenvolvida em 2013, durante a pós-produção de Snowpiercer, outro filme de Bong sobre estratificação de classes, mas amadureceu por cerca de quatro anos antes de virar roteiro. Bong escreveu um tratamento de 15 páginas logo depois de Snowpiercer, e delegou boa parte da pesquisa de campo a Han Jin-won, seu assistente de direção, que passou meses entrevistando governantas, tutores e motoristas reais, e visitando bairros ricos e pobres de Seul. Han produziu três versões diferentes do tratamento antes de Bong retomar pessoalmente o roteiro, já em 2017. Bong descreveu ter escrito a segunda metade da história muito rápido, comparando a sensação a água escoando de uma pia, silenciosa no início, com um gorgolejo acelerado no final.
A fotografia é assinada por Hong Kyung-pyo, na terceira colaboração dele com Bong (depois de Mother, 2009, e Snowpiercer, 2013). As filmagens principais aconteceram entre 18 de maio e 19 de setembro de 2018, em Seul e Jeonju, usando câmera ARRI Alexa 65 com lentes Prime DNA e Hasselblad.
Bong descreveu Parasita como parte de uma tradição que ele chama de "filme de escadaria" (stairway film), citando como precedentes Downton Abbey, Gosford Park e High-Rise, filmes e séries que usam a arquitetura vertical de uma casa para organizar visualmente a relação entre classes sociais. Ele também citou explicitamente Céu e Inferno (1963), de Akira Kurosawa, como referência estrutural direta para a relação entre a casa no alto do morro e o que acontece embaixo dela.
Um detalhe menos comentado: Hong Kyung-pyo usou cores diferentes de luz de rua para marcar a transição entre bairros. No bairro rico, luzes de LED brancas. No bairro pobre, luzes mais escuras, em tons de vermelho e laranja. É o mesmo princípio do contraste de luz natural discutido no módulo sobre a luz, mas aplicado à cidade ao redor das casas, não só ao interior delas.
A produção enfrentou uma onda de calor recorde na Coreia do Sul durante as filmagens de 2018, e precisou manter o jardim da mansão visivelmente vivo e bem cuidado o tempo todo. Para isso, a equipe usou sistemas de irrigação e drenagem equivalentes aos usados em campos de futebol profissionais, um detalhe de produção que raramente aparece nas discussões sobre o filme, mas que mostra o nível de cuidado técnico por trás de um cenário que existiu por poucos meses.
A equipe de produção evitou divulgar publicamente que a mansão e o bairro eram sets construídos até depois da estreia do filme em Cannes, justamente para preservar o realismo da experiência de quem assistia sem saber.