Coleção Parasita · Trilha 1 · Módulo 8
A cena de comida mais citada de Parasita é a preparação do jjapaguri, um prato que, na legenda em inglês, virou "ram-don", nome inventado por Darcy Paquet, o tradutor responsável pelas legendas do filme, combinando "ramen" e "udon" numa palavra que soasse mais familiar para o público ocidental.
Diferente do que muita gente pensa, o jjapaguri não foi inventado por Bong Joon-ho. É um prato real, popular na Coreia do Sul havia décadas antes do filme, descrito por quem cresceu comendo ele como uma espécie de "alta cozinha de estudante sem dinheiro": a combinação de dois macarrões instantâneos, o Chapagetti (macarrão de molho de feijão preto) e o Neoguri (macarrão apimentado sabor frutos do mar), misturados num prato só.
O que é original do filme é a carne. Bong explicou, em entrevista por e-mail ao Los Angeles Times, que a ideia era mostrar uma criança rica que gosta do mesmo prato simples que qualquer criança gosta, mas cuja mãe não suporta servir a ele algo "barato" sem antes sofisticar, e por isso manda acrescentar cubos de carne bovina de altíssima qualidade (hanwoo, o equivalente coreano do wagyu japonês) por cima do macarrão instantâneo. A cena resume, num prato só, o impulso da riqueza de enobrecer até a comida mais simples, mesmo quando ninguém pediu isso.
É Chung-sook, já infiltrada como governanta da casa, quem precisa preparar o prato correndo, no meio de uma sequência de tensão crescente (é a mesma cena em que a família Kim está se escondendo da volta antecipada dos Park). A comida vira, nesse momento, mais uma tarefa de servir sob pressão do que um gesto de cuidado, reforçando a posição de quem trabalha ali dentro.
Esse tipo de leitura, a comida como sinalizador de classe, já está documentado em pesquisa acadêmica confirmada: Turner, E. "The Parasite of Society: Food and Class Studies in Bong Joon-ho's Film Parasite." Digital Literature Review (Ball State University), 2021, DOI: 10.33043/DLR.8.1.7-13, já catalogado na bibliografia desta trilha. O artigo argumenta que a comida funciona no filme como veículo direto para sinalizar status e desigualdade entre as famílias, além de servir de alerta sobre como a desigualdade de classe pode corroer a própria sociedade.
Em outra entrevista, à Fortune, Bong descreveu o ponto central do filme de um jeito que se aplica bem a essa cena: funções de trabalho como cozinhar, dirigir e cuidar da casa aproximam fisicamente pessoas de classes diferentes, a ponto de sentirem o cheiro umas das outras, mas mesmo essa proximidade física não é suficiente para apagar a linha que separa quem serve de quem é servido.