Forma contemporânea de acumulação capitalista em que empresas não vendem produtos, mas controlam infraestruturas digitais que extraem e monetizam dados dos usuários. O modelo é autofortalecedor: mais usuários produzem mais dados, que melhoram o serviço, que atraem mais usuários.
O capitalismo de plataforma, conceito desenvolvido por Nick Srnicek em Platform Capitalism (2017), descreve uma mutação estrutural no modo de acumulação capitalista. Empresas como Google, Facebook, Amazon, Uber e as grandes plataformas de apostas não vendem, primariamente, produtos ou serviços: vendem acesso a uma infraestrutura digital que intermediou bilhões de interações e acumulou, nesse processo, volumes massivos de dados sobre o comportamento humano.
Os dados se tornaram a matéria-prima central desse capitalismo. Eles não se esgotam com o uso: ao contrário, crescem. E permitem às plataformas oferecer um serviço aparentemente gratuito enquanto monetizam a atenção e o comportamento do usuário de três formas principais: venda de publicidade segmentada, venda de dados a terceiros e, no caso das plataformas de apostas, extração direta de valor por meio das perdas dos usuários.
Shoshana Zuboff aprofundou a análise com o conceito de capitalismo de vigilância: as plataformas não apenas registram comportamento passado, mas usam esses registros para prever e modificar comportamento futuro. Algoritmos identificam os momentos de vulnerabilidade do usuário, quando ele está mais propenso a gastar mais do que pretendia, e intervêm nesses momentos com estímulos personalizados.
No contexto das apostas esportivas, o capitalismo de plataforma explica por que o crescimento é desproporcional entre os mais pobres: os algoritmos identificam usuários com maior elasticidade emocional à esperança e ao risco, e concentram a publicidade e os bônus nesses perfis. O resultado não é aleatório. É engenharia.