Definição
Mecanismo em que um conteúdo recalcado chega à consciência em forma de negativa, de modo que algo é reconhecido sem ser aceito. Em Freud, *Verneinung*.
No texto de 1925 sobre a negação, Freud observa que um conteúdo recalcado pode chegar à consciência desde que seja enunciado em forma negativa. O exemplo clássico é o paciente que, diante de uma figura que surgiu em seu sonho, afirma “não é a minha mãe” e revela, ao negar, aquilo de que se trata. A negação permite o reconhecimento no plano intelectual enquanto o recalcamento, no plano afetivo, continua. Na tradução brasileira das obras completas, Verneinung aparece como “negação”; a tradição francesa e muitos autores brasileiros preferem “denegação”. Distingue-se da recusa (Verleugnung), que é a não aceitação de uma percepção da realidade.
A noção ajuda a pensar o racismo porque descreve um modo de saber que não implica aceitação. Frases como “não sou racista, mas” ou “racismo é coisa de americano” reconhecem que o racismo existe e, ao mesmo tempo, recusam assumir seu lugar na própria vida. A negação, portanto, supõe um saber que precisa ser mantido a distância.
Passar do indivíduo à sociedade exige cuidado. O sociólogo Stanley Cohen descreve três formas de negação social: a literal (os fatos não ocorreram), a interpretativa (os fatos são reinterpretados para perder significado) e a implicativa (os fatos são admitidos, mas as consequências são evitadas). A relação entre Freud e Cohen é interpretativa, não uma equivalência: nem toda recusa pública de reconhecer o racismo é manifestação de um processo inconsciente, e ela pode envolver interesses, normas e relações de poder.
Verbete elaborado a partir da pesquisa de Laryssa Grazielly de Lima Sousa Araújo (Revista NEXO, e0014). Revisão editorial: NEXO. Quer expandir este verbete? Colabore gratuitamente com o NEXO; quem amplia divide a autoria, sem hierarquia.