O processo pelo qual as estruturas econômicas, culturais e ideológicas de uma sociedade se perpetuam de geração em geração, com ou sem a consciência dos sujeitos.
Reprodução social é o conjunto de processos pelos quais uma sociedade perpetua suas condições de existência: não apenas a produção de bens materiais, mas a reprodução das relações sociais, das hierarquias, dos valores e das ideologias que as sustentam.
Marx formulou o problema no capítulo 23 de O Capital, Livro I (1867; ed. Boitempo, 2013, p. 657-673), ao analisar a 'reprodução simples': o capitalismo não produz apenas mercadorias, reproduz as condições que permitem que ele continue existindo, inclusive a divisão entre quem possui os meios de produção e quem só possui sua força de trabalho. 'O processo capitalista de produção, visto em seu conjunto ou como processo de reprodução, produz não apenas mercadorias, não apenas mais-valor, mas produz e reproduz a própria relação capitalista' (Marx, 2013, p. 654).
Louis Althusser expandiu o conceito em Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado (1970; publicado no Brasil em Sobre a Reprodução, Vozes, 2019). Althusser distingue os Aparelhos Repressivos de Estado (polícia, exército, prisões) dos Aparelhos Ideológicos de Estado: escola, família, Igreja, mídia. Estes reproduzem a ideologia dominante sem recorrer primariamente à violência. Para Althusser, a escola é o principal aparelho ideológico das sociedades capitalistas maduras: forma, ao longo de anos de escolarização obrigatória, sujeitos que aceitam como natural a divisão do trabalho e a hierarquia social.
Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron aprofundaram a análise em A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino (1970; ed. Vozes, 2008). O conceito central é o de violência simbólica: a ação pedagógica impõe significados legítimos dissimulando as relações de poder que os fundamentam. O capital cultural — saberes, gostos e disposições herdados da família — funciona como vantagem no campo escolar, reproduzindo desigualdades de origem com aparência de mérito individual. 'A escola trata os desiguais como iguais e, ao fazê-lo, consagra as diferenças iniciais como diferenças de mérito' (Bourdieu e Passeron, 2008, p. 53).
O limite dessas teorias, apontado por Dermeval Saviani em Escola e Democracia (1983; Cortez/Autores Associados, 42ª ed. 2012, cap. 1), é que elas tendem à paralisia: se a escola apenas reproduz, para que transformá-la? Saviani argumenta que a reprodução não é mecânica nem total, e que o acesso ao saber elaborado pode fornecer às classes trabalhadoras os instrumentos para compreender e questionar as condições de sua própria reprodução — base da Pedagogia Histórico-Crítica.