Por trás do que se chama dever ou afeto, o feminismo encontrou trabalho, e trabalho não pago.NEXO · Atlas
Em poucas páginas, escritas em 1975, Silvia Federici fez uma pergunta que mudou o feminismo: e se o trabalho doméstico não fosse amor, mas trabalho?
Salário contra o trabalho doméstico é um manifesto. A exigência de remunerar o trabalho do lar não era, sobretudo, sobre dinheiro: era uma estratégia para tornar visível, e portanto recusável, um trabalho que o capitalismo naturalizou como obrigação feminina.
Tornar visível para poder recusar
Enquanto o trabalho doméstico for visto como expressão de amor, exigir condições parece quase uma traição ao afeto. Federici desfaz essa armadilha: nomeá-lo como trabalho é a condição para questioná-lo, organizá-lo e, se preciso, recusá-lo.
Uma exigência que desnaturaliza
Pedir salário pelo trabalho doméstico não era aceitar o papel, era explodi-lo. A demanda revelava que aquilo era trabalho produtivo para o capital, e não vocação. Ao desnaturalizar a tarefa, abria caminho para uma vida organizada de outro jeito.
Estratégia, não receita
O NEXO lembra que a palavra de ordem foi sempre debatida, inclusive entre feministas. O ponto não era criar mais um salário, mas usar a exigência como alavanca política. É um texto fundador do feminismo materialista.
O trabalho de manter a casa e a vida, transformado pelo capitalismo em obrigação feminina sem salário.
As lutas que nascem deste panfleto reaparecem, décadas depois, na análise global do cuidado.
A história que Federici contaria depois, da origem violenta dessa divisão do trabalho.
Wages Against Housework segue atual em cada discussão sobre divisão do cuidado e jornada dupla. Foi a faísca de toda a obra posterior de Federici sobre reprodução e comuns.
Feminismo, Trabalho e Natureza.
