
Capítulo I
Capitalismo verde: uma falácia destruidora
Selo de sustentabilidade, reciclagem e economia verde como estratégia de mercado, não como cuidado.
Cada vez mais as grandes indústrias do mercado capitalista têm buscado se encaixar em um modelo de produção mais sustentável, visando que os impactos causados por essa economia fossem reduzidos, havendo um menor consumo de matéria e energia para que o sistema continuasse funcionando normalmente.
No entanto, é importante observar os motivos que impulsionaram essa mudança, visto que o mercado, de forma geral, percebeu que os clientes se sentiam mais propensos a adquirir algo que tivesse um selo de sustentabilidade, remetendo a uma ideia que a empresa se preocupa com alguma questão ambiental, sendo esta, muitas vezes, apenas uma estratégia para atrair esse cliente. Com isso, o mercado encontrou uma lacuna para abordar um público mais diverso e, de certa forma, até mais consciente.
Muitas práticas acerca da questão ambiental são atreladas a estratégias de mercado para consolidação de marca e são utilizadas como forma de adquirir uma maior empatia do público e reforçar os relacionamentos entre toda a cadeia de stakeholders.* Tais práticas podem se esvaziar de sua intenção socioambiental e repousar em um contexto mercadológico regido por ações estratégicas de marketing.
* Stakeholders são partes interessadas em uma organização, projeto ou iniciativa que têm influência direta ou indireta sobre ela, ou que são afetadas por suas ações e decisões. Leia mais em: https://exame.com/carreira/guia-de-carreira/stakeholders-o-que-sao-e-quais-sao-os-principais-tipos/
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
Ainda que a Constituição Brasileira defenda o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, o sistema capitalista insiste em afirmar que é possível preservá-lo sem alterações profundas e estruturais. Contudo, isso não se sustenta. Não é possível refletir verdadeiramente sobre o tema sem uma mentalidade crítica sobre diversos pontos da sociedade.
Essa tentativa de manter o sistema capitalista em funcionamento, usando apenas medidas emergenciais para redução de danos, pode ser chamada de ConceitoCapitalismo VerdeA promessa de conciliar crescimento econômico e proteção ambiental sem tocar na lógica de acumulação: uma falsa solução.Ver no Atlas do NEXO, economia verde, ecocapitalismo (entre outras opções).¹Nota para aprofundamentoO chamado capitalismo verde consiste na tentativa de conciliar crescimento econômico contínuo com proteção ambiental, apostando em tecnologias limpas e mecanismos de mercado como solução para a crise ecológica. Autores críticos, como Michael Löwy, James O’Connor e John Bellamy Foster, defendem que tais propostas não alteram as bases do sistema capitalista, que depende estruturalmente da expansão infinita e da exploração da natureza como mercadoria.Clique para ver a nota Ao analisar essa defesa, fazem-se necessários alguns questionamentos sobre a verdadeira visão capitalista e a não homogeneidade com a natureza.
É imperativo, a quem defende o ecocapitalismo, pensar no que será feito quando os recursos naturais se esgotarem e quando a mão de obra se tornar obsoleta. Mais que isso, é necessário observar porque a população, de forma individual, tem sido culpada pela falta de cuidado com a ecologia global enquanto é bombardeada com propagandas sobre economia de água, luz e energia, embora saibamos que o próprio sistema capitalista coloca o lucro acima de qualquer cuidado ambiental, explorando recursos naturais em uma escala infinitamente maior que uma família brasileira poderia causar.
A reciclagem na escola e a culpa individual
Além disso, em nossas escolas, é possível perceber como a prática da reciclagem está ligada às questões ambientais, reforçando a ideia equivocada de que ações individuais seriam suficientes para salvar o planeta. Embora essas atitudes sejam importantes, precisamos compreender que as pessoas mais impactadas com as devastações ambientais não são as responsáveis pela produção dos maiores poluentes.²Nota para aprofundamentoO conceito de desenvolvimento sustentável, amplamente difundido desde o Relatório Brundtland (1987), busca equilibrar crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Entretanto, diversos autores marxistas e ecossocialistas argumentam que essa formulação incorpora a linguagem ecológica sem romper com a lógica do capital, servindo como instrumento de legitimação de práticas exploratórias travestidas de responsabilidade ambiental.Clique para ver a nota
Sendo assim, o pensar o meio ambiente precisa ser expandido de uma realidade individual para uma mobilização total, sendo exigido tanto do Estado quanto das indústrias e da população medidas realmente efetivas. Quando colocamos esse ponto em questão, é possível analisar mais criticamente se grandes marcas, empresas e influenciadores políticos ligados ao capitalismo realmente têm a urgência de cuidar e se preocupar com a natureza ou se desejam apenas consumi-la.
Visto que esse tipo de economia, tão apoiado pela extrema-direita, como observado no governo Bolsonaro (2019-2022), deturpou as leis e se beneficiou disso para desmatar e expandir o agronegócio, ecoando durante suas campanhas que “O agro é POP”, sendo este um ponto de ironia entre uma sociedade que precisava de medidas urgentes, mas que só encontrava o descaso, o crescimento da desigualdade e a exploração da matéria limpa do planeta.
Nesse sentido, o governo Bolsonaro caracterizou-se por um conjunto de privilégios ao agronegócio, tais como: a prioridade da destinação de recursos públicos para o setor, renegociação periódica das dívidas e blindagem política em casos de ações ilegais cometidas contra o meio ambiente ou contra os povos tradicionais do campo. Desse modo, o “Agro” se firma como a principal base de sustentação da Extrema-Direita Bolsonarista, porém, simultaneamente, ocorre um processo de ampliação dos impactos socioambientais sem precedentes na história do país.
Quando analisamos o sistema capitalista mais de perto, vemos que é impossível conciliar seus princípios com uma visão ambiental saudável, já que o capitalismo tem por objetivo retirar da natureza sua matéria prima e transformá-la em um produto de consumo, que gere lucro. Essa apropriação de recursos naturais aos desejos mercadológicos leva a uma usurpação dos bens do planeta, que não deveriam pertencer a alguém ou aos bolsos dos grandes proprietários. Com essa lógica, mares, rios, florestas e atmosfera são transformados em propriedade privada, ao invés de serem bens comuns.
É importante refletir que, mesmo tendo relatos sobre como o governo Bolsonaro não se preocupava com as questões ambientais, o atual governo Lula (2023-) também não apresenta resultados promissores. Mesmo um partido conhecido como “de esquerda” ainda não apresenta uma alternativa real ao problema, sendo observadas mais pequenas ações do que transformações concretas. Exigir o cuidado com o meio ambiente vai além de defender questões partidárias. É necessário um compromisso ético e real com o planeta e não apenas aceitar o que é realizado, seja pelo partido de esquerda ou direita.
A COP 30 em Belém
A COP 30, realizada em Belém, Pará, em novembro de 2025, é um exemplo de como o Brasil estava envolvido nas questões de emissões de gases e demais situações. Mesmo em um governo dito de esquerda, inúmeros protestos foram realizados, denúncias foram feitas e toda a estrutura que foi desenvolvida para um evento que deveria pensar na defesa do meio ambiente serviu para exploração tanto da natureza quanto de todas as pessoas que vivem na região. Além dos impactos ambientais causados pelas construções de espaços para o evento, a população também sofreu com aumento de preços e vários outros impactos que desencadeiam uma realidade não equilibrada para uma vida digna.
Em uma reportagem para o portal R7, o cientista político Gabriel Amaral alega que a COP 30 pode ser lembrada mais por problemas do que resultados, visto que a participação de um país torna necessário que ele tenha um padrão mais rigoroso de observação. Além disso, aponta as incoerências entre discurso e prática, por exemplo, o Presidente Lula realizar um discurso contra combustíveis fósseis enquanto autoriza a exploração de petróleo na Margem Equatorial.
A imagem não se desgasta pelo conteúdo, mas pela distância entre a intenção e a prática.
Dessa forma, é necessário analisar que o meio ambiente não tem sido realmente transformado e não será, enquanto o sistema que nos rege for o capitalismo. Conforme analisado, tanto governos de esquerda quanto o absurdo governo de extrema-direita permanecem vinculados à lógica exploratória. Dessa forma, como defendido pelo pesquisador AutorMichael Löwyn. 1938EcossocialismoPrincipal obra: O que é Ecossocialismo? (2014)Sociólogo franco-brasileiro, um dos principais teóricos do ecossocialismo contemporâneo.Ver no Atlas do NEXO, somente uma mudança radical pode alterar os rumos do ecossistema.
Ainda dentro do ecocapitalismo é necessária uma análise sobre o interesse das governanças no desenvolvimento de uma economia sustentável, já que, para isso, é fundamental que exista um ambiente favorável, tanto economicamente quanto politicamente. Políticas rígidas para regulamentação são essenciais, tanto para estimular investimentos em áreas verdes quanto para cobrar setores que não cumpram acordos estipulados. Pensar em ecologia saudável é pensar em povos originários, desigualdades e justiça social.
Por isso, é imprecisa a ideia de que o ecocapitalismo carrega uma bandeira de inclusão, combate à pobreza e à desigualdade social. Como abordado por Araújo e Silva (2012, p. 136), os ideólogos não tecem comentários acerca das formas de apropriação e socialização da riqueza socialmente produzida, nem falam sobre a desconcentração, deixando evidenciar a falácia de sua propositura.
Dentro da lógica ecocapitalista, trabalhadores e povos originários, cada um atingido por violências específicas, são igualmente relegados a uma posição instrumental. O sistema os trata não como protagonistas sociais, mas como recursos exploráveis, utilizados enquanto servem ao lucro e abandonados quando deixam de atender às exigências do mercado. Por isso, após a análise de todos esses pontos do capitalismo verde é importante destacar que o mesmo não passa de uma estratégia para regulamentar e continuar com a exploração e apropriação da natureza, gerando ainda mais lucro, como concluído por Araújo e Silva (2012):
A Economia Verde é, precisamente, isso: uma estratégia que busca reorientar a composição orgânica do capital, restabelecendo para os oligopólios e para os grandes aglomerados financeiros internacionais possibilidades de apropriação da natureza em larga escala, e com maior eficiência e eficácia. Busca transformar o que ainda permanece “bem de uso comum” em mercadoria, fonte de valor de troca. Procura metamorfosear bens naturais em “ativos ambientais”, como as águas, o ar (taxando a emissão de gases), as florestas, passíveis, a partir de então, de serem incorporados nos cálculos estatísticos das finanças capitalistas.
Após a compreensão dessa análise, é possível perceber que o capitalismo, além de não preservar ou se importar com o ecológico, ainda é um sistema falido em si mesmo. Sua determinação por retirar tudo da natureza levará ao esgotamento da matéria natural, fazendo com que sua própria economia entre em colapso.
É neste contexto que surge o ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO. Ele representa uma alternativa radical ao sistema atual, denunciando que a devastação da natureza não é um acidente, mas uma consequência direta de um modelo econômico que coloca o lucro acima da vida. O ecossocialismo propõe uma transformação profunda tanto na relação com a natureza quanto na organização social, entendendo que não há solução ambiental duradoura dentro da lógica capitalista atual.
Compreender a crise ambiental é o primeiro passo. O segundo é analisar criticamente suas raízes e buscar caminhos que coloquem a vida, humana e não humana, no centro das decisões. É a partir dessa perspectiva que seguiremos nos próximos capítulos.
Notas para Aprofundamento
O chamado capitalismo verde consiste na tentativa de conciliar crescimento econômico contínuo com proteção ambiental, apostando em tecnologias limpas e mecanismos de mercado como solução para a crise ecológica. Autores críticos, como Michael Löwy, James O’Connor e John Bellamy Foster, defendem que tais propostas não alteram as bases do sistema capitalista, que depende estruturalmente da expansão infinita e da exploração da natureza como mercadoria.
- LÖWY, Michael. O que é o ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2014.
- FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
O conceito de desenvolvimento sustentável, amplamente difundido desde o Relatório Brundtland (1987), busca equilibrar crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Entretanto, diversos autores marxistas e ecossocialistas argumentam que essa formulação incorpora a linguagem ecológica sem romper com a lógica do capital, servindo como instrumento de legitimação de práticas exploratórias travestidas de responsabilidade ambiental.
- COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (CMMAD). Nosso futuro comum. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1991. (Relatório Brundtland).
- FOSTER, John Bellamy. Ecologia e capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2005.

Expandindo o tema
Para seguir daqui
- artigoDesmonta a narrativa de que reciclagem é suficiente. Explica como indústrias petroquímicas fazem lobby para insistir na reciclagem, desviando o foco do problema real: a produção crescente e descontrolada de plástico.
- podcastDiscute por que é insuficiente basear a solução ambiental apenas na reciclagem, enfatizando que mudanças sociais, econômicas e políticas são necessárias para enfrentar a crise ambiental.
- filmeSaneamento Básico, o Filme revela, com humor e crítica social, como problemas ambientais não se resolvem com improvisos individuais, mas com políticas públicas reais. Um retrato da falácia das soluções fáceis dentro do capitalismo verde.

