NEXOEcossocialismoÍndice
Trabalhadoras e trabalhadores de perfil diante de uma bandeira vermelha, com turbinas eólicas e um rio ao fundo.

Capítulo II

Socialismo, Comunismo e a emergência do Ecossocialismo

A transição que Marx descreve, o Estado que precisa minguar e o lugar do ecossocialismo nessa linhagem.

A perspectiva marxista aponta que a alternativa pós-capitalista é o comunismo, que, por sua vez, não se alcança de imediato. É preciso necessariamente passar por uma fase de transição, o socialismo, que é um sistema baseado na socialização dos meios de produção/propriedade privada, na supressão das diferenças de classes, no uso do Estado por trabalhadores para a gestão pública e no desenvolvimento do poder popular por meio de medidas e espaços de formação e decisão política (coletivos, comunas, assembleias, sovietes, conselhos etc.).
Fernandes, 2020, p. 110

O socialismo pode surgir de uma forma imediata ou gradativa. No caso da forma gradativa, a produção tem seu lucro direcionado aos trabalhadores para as necessidades de toda a população. É dito “gradativo” porque o Estado é o responsável pela distribuição desse valor arrecadado para a população. Nesse quesito, é preciso ter a consciência de que um socialista não deseja que o Estado detenha poder por muito tempo. Sendo assim, no socialismo essa distribuição precisa fluir de forma tão natural a ponto de o Estado ser reduzido até o seu desaparecimento.

No capitalismo, toda exploração de trabalho e natureza é enviada aos capitalistas, que remuneram os trabalhadores apenas com o suposto necessário, enquanto no socialismo o trabalhador é visto como o realizador de todas as coisas, ou seja, se ele produz é preciso que ele tenha o direito de possuir.

O socialismo se preocupa que todos tenham direitos estabelecidos, como moradia, saúde, alimentação, educação e todo o necessário para uma vida digna, não pensa em consumo, mas em dignidade humana.
Ecossocialismo · Capítulo II

Esse sentido de ser possuidor vai além da lógica materialista, amplamente vivida pelo capitalismo. O socialismo se preocupa que todos tenham direitos estabelecidos, como moradia, saúde, alimentação, educação e todo o necessário para uma vida digna, não pensa em consumo, mas em dignidade humana.

O Estado que precisa minguar

É possível pensar que o comunismo é o resultado final do socialismo, quando toda a sociedade possuir igualdade e for administrada pelos próprios trabalhadores, não será necessária a presença de um Estado regulador.

Conforme argumenta AutorSabrina Fernandesn. 1988Ecossocialismo, crítica da esquerda contemporâneaPrincipal obra: Se Quiser Mudar o Mundo: um guia político para quem se importa (2020)Socióloga brasileira, uma das principais divulgadoras do ecossocialismo em língua portuguesa. Criou o canal Tese Onze e escreve sobre clima, transição energética e os impasses da esquerda diante da crise ecológica.Ver no Atlas do NEXO (2020), um Estado socialista que supera o capitalismo, mas mantém sua organização, torna-se um obstáculo para o comunismo. Por isso, é importante que o socialismo seja estruturado não apenas nos líderes, mas com toda uma organização de classes, para que ele seja um momento de passagem ao comunismo como acreditava AutorKarl Marx1818–1883Materialismo histórico-dialéticoPrincipal obra: O Capital: Crítica da Economia Política (1867)Filósofo, economista e revolucionário alemão. Sua crítica da economia política, sistematizada em O Capital, tornou-se a base teórica de toda análise anticapitalista moderna: incluindo a leitura ecológica do capitalismo retomada hoje por Foster, Saito e o ecossocialismo.Ver no Atlas do NEXO.

O socialismo marxista é um socialismo científico e não utópico; ou seja, não consiste em simplesmente desejar o socialismo, mas em desenvolver métodos para alcançá-lo. O método, como você já sabe, é baseado no materialismo histórico e dialético, na construção das condições necessárias. A organização de classe e a consciência de classe são elementos centrais nesse processo; além disso, é preciso avaliar as condições de desenvolvimento produtivo da sociedade. Para chegar ao socialismo, é preciso construí-lo.
Fernandes, 2020, p. 115

Nessa compreensão, a definição do ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO se caracteriza enquanto uma corrente de pensamentos e ações formadas dentro do socialismo para que seja possível a emancipação de uma sociedade global socialista.

São esses os motivos que nos levam a crer que para uma sociedade mais igualitária e que queira sobreviver por muitos anos é necessário reestruturar todo um sistema organizacional, tornando-o realista e realmente viável.³Nota para aprofundamentoA necessidade de reorganizar o sistema produtivo e político para além do capitalismo encontra ressonância no pensamento latino-americano do Bem Viver, que propõe modos de existência baseados na coletividade, na reciprocidade e na convivência harmoniosa com a natureza. Autores como Alberto Acosta defendem que a superação da crise ecológica não passa por ajustes dentro do desenvolvimento capitalista, mas por imaginar outros mundos possíveis ancorados em valores comunitários, ecológicos e anticoloniais.Clique para ver a nota

Segundo as pesquisas, não podemos acreditar que o planeta possua fontes ilimitadas para que seja possível a retirada de toda sua matéria original sem que nos falte algo essencial em um determinado período de tempo. Desse modo, é preciso pensar em uma economia que não explore toda a matéria prima do planeta, juntamente com uma economia que abrace a todos de forma igualitária.

Explorar o planeta e as pessoas faz parte do sistema capitalista e, por esse motivo, é preciso que o ecossocialismo seja abertamente debatido e apresentado à população, afinal, é interesse da própria população manter o planeta vivo.

Portanto, o que é ecossocialismo

Trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que faz suas aquisições fundamentais do marxismo, ao mesmo tempo que o livra das suas escórias produtivistas. Para os ecossocialistas a lógica do mercado e do lucro, assim como a do autoritarismo burocrático de ferro e do “socialismo real”, são incompatíveis com as exigências de preservação do meio ambiente natural. Ainda que critiquem a ideologia das correntes dominantes do movimento operário eles sabem que os trabalhadores e as suas organizações são uma força essencial para qualquer transformação radical do sistema, e para o estabelecimento de uma nova sociedade, socialista e ecológica.
Löwy, 2014, p. 44

Notas para Aprofundamento

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A crítica ecossocialista ao colapso ecológico provocado pelo capitalismo enfatiza que a crise ambiental não é um acidente, mas consequência direta da racionalidade econômica baseada na exploração ilimitada dos recursos naturais. Autores latino-americanos, como Enrique Leff, defendem que a modernidade capitalista instaurou uma racionalidade instrumental que rompe os vínculos ecológicos e culturais dos povos, aprofundando desigualdades e destruindo a base material da vida.

  • LEFF, Enrique. Ecologia, capital e cultura: racionalidade ambiental, democracia participativa e desenvolvimento sustentável. Petrópolis: Vozes, 2009.
  • PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
²

A discussão sobre socialismo e transformação estrutural ganha profundidade ao incorporar leituras que problematizam como raça, gênero e classe se articulam na formação do capitalismo. Autoras como Angela Davis demonstram que a exploração capitalista está profundamente enraizada em sistemas simultâneos de opressão, o que revela que qualquer projeto socialista, incluindo o ecossocialismo, precisa enfrentar também desigualdades racializadas e patriarcais para efetivar uma mudança verdadeiramente emancipatória.

  • DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
  • ARRUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismo para os 99%: um manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.
³

A necessidade de reorganizar o sistema produtivo e político para além do capitalismo encontra ressonância no pensamento latino-americano do Bem Viver, que propõe modos de existência baseados na coletividade, na reciprocidade e na convivência harmoniosa com a natureza. Autores como Alberto Acosta defendem que a superação da crise ecológica não passa por ajustes dentro do desenvolvimento capitalista, mas por imaginar outros mundos possíveis ancorados em valores comunitários, ecológicos e anticoloniais.

  • ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.
  • GUDYNAS, Eduardo. Direitos da natureza: ética biocêntrica e políticas ambientais. São Paulo: Elefante, 2016.
Mulher com bandeira vermelha à frente de uma multidão, turbinas eólicas ao fundo.