Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 2
Em 1974, Brasil e Itália assinaram um acordo de coprodução cinematográfica. Ele existiu no papel por mais de três décadas sem que nenhum filme o usasse de fato. Estômago foi o primeiro. A produtora brasileira Zencrane Filmes se associou à italiana Indiana Filmes para viabilizar o projeto, e levou cerca de um ano só para formalizar o contrato entre as duas empresas, segundo relatos da própria produção.
O filme se encaixa num momento específico do cinema brasileiro, o período conhecido como Retomada, que começa em 1993 com a reativação de leis de incentivo depois do apagão da produção nacional no início dos anos 1990. Pesquisa publicada na revista acadêmica Vernáculo (UFPR) situa Estômago exatamente nesse contexto: um cinema que precisa buscar arranjos de produção criativos, incluindo parcerias internacionais, pra viabilizar projetos de orçamento médio no mercado nacional.
Estômago foi feito com orçamento de R$ 2 milhões, rodado em cinco semanas entre Curitiba e São Paulo. A parte de finalização, a pós-produção, foi feita inteiramente na Itália, dividida entre Milão e Roma. É um detalhe que costuma passar despercebido de quem assiste ao filme sem saber da coprodução: apesar de a história, o elenco e as locações serem inteiramente brasileiros, uma parte importante do processo técnico do filme aconteceu do outro lado do Atlântico.
Além de viabilizar o orçamento, o arranjo internacional ajudou a colocar Estômago em circuito fora do Brasil. O filme passou por festivais como o Raindance, em Londres, e o de Biarritz, na França, além de prêmios em Punta del Este, no Uruguai. Para um filme rodado inteiramente em português, com um protagonista nordestino recém-chegado à cidade grande, essa circulação internacional não era um resultado óbvio, e o acordo de 1974, esquecido por tanto tempo, teve um papel direto nisso.