Coleção Estômago · Trilha 1 · Módulo 6
Um erro comum ao assistir Estômago é pensar que Nonato busca dinheiro, ou simplesmente sobrevivência. As leituras acadêmicas do filme apontam pra outra direção: o que ele busca, na verdade, é reconhecimento, e a cozinha é o instrumento que ele encontra pra conseguir isso. O saber-fazer culinário funciona, dentro da história, como uma forma de capital que pode ser convertida em posição social, tanto no restaurante quanto na cadeia.
Um artigo publicado na Revista Temas em Educação (UFPB), assinado por pesquisadores que analisam o filme sob a ótica de Michel Foucault, resume o mecanismo com uma citação direta do próprio filósofo: "não há saber que não pressuponha e não constitua simultaneamente relações de poder". Aplicado a Estômago, isso significa que cada novo prato que Nonato aprende a fazer não é apenas uma habilidade neutra. É uma peça de barganha, um instrumento de sedução, e uma ferramenta de dominação, tudo ao mesmo tempo.
O mesmo artigo usa o conceito de instituição total, de Erving Goffman, pra explicar como a hierarquia de poder dentro da cadeia reproduz, quase ponto a ponto, a hierarquia que existe do lado de fora. Cada posto que Nonato conquista na cozinha do presídio funciona como uma nova máscara social, o mesmo tipo de transformação de identidade que ele já tinha vivido no restaurante. O filme evita qualquer mensagem fácil de que a prisão seria diferente, ou pior, do mundo livre. Ela é, na verdade, uma versão mais concentrada das mesmas regras.
O que distingue essa leitura de uma fábula edificante comum é que Estômago recusa o maniqueísmo. Nonato não é um herói que vence o sistema. Conforme ele acumula poder, ele também reproduz a mesma opressão que sofreu, até se tornar, segundo o crítico Ronan Gonçalves em texto publicado no site Passa Palavra, alguém capaz de "crimes frios" para manter sua posição. A revolta que move o personagem não é econômica, é moral, motivada pela humilhação, e é essa revolta bem-sucedida que, paradoxalmente, o transforma em alguém pior do que era antes.