NEXOEcossocialismoÍndice
Menina negra e ancião indígena de perfil, diante de enchente, fogo e terra rachada.

Capítulo V

Quem sofre a crise climática?

Raça, gênero e classe como engrenagens da crise: racismo ambiental, ecofeminismo e ecossocialismo feminista.

Quando analisados todos os resultados da crise climática, é impossível dizer que ela é neutra: ainda que atinja toda a humanidade, ela não recai da mesma forma para as pessoas. A destruição ambiental aprofunda desigualdades históricas e revela que tanto gênero, raça e classes estruturam quem tem mais ou menos acesso para viver com dignidade. Assim, compreender quem sofre a crise climática significa compreender também como o capitalismo organiza corpos e territórios para explorar, descartar e silenciar.

O identitarismo vem sendo usado nas últimas décadas por setores conservadores e grupos de extrema direita. O principal objetivo é deslegitimar debates sobre feminismo, raça, povos indígenas e sexualidade. Entretanto, como explica AutorSabrina Fernandesn. 1988Ecossocialismo, crítica da esquerda contemporâneaPrincipal obra: Se Quiser Mudar o Mundo: um guia político para quem se importa (2020)Socióloga brasileira, uma das principais divulgadoras do ecossocialismo em língua portuguesa. Criou o canal Tese Onze e escreve sobre clima, transição energética e os impasses da esquerda diante da crise ecológica.Ver no Atlas do NEXO, essa denúncia é, muitas vezes, uma forma de tentar impedir que lutas essenciais apareçam dentro das análises estruturais:

O identitarismo funciona como um espantalho político. Ele serve para atacar movimentos sociais e deslegitimar reivindicações essenciais para entender como o capitalismo opera. Raça, gênero e classe não existem separadas. O capitalismo não funciona sem essas opressões.
Fernandes, 2020, vídeo O que é Identitarismo?, transcrição livre

Discutir quem sofre mais com a crise ambiental não fragmenta a luta, mas aprofunda. O ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO precisa incorporar as dimensões de raça, gênero e colonialidade, visto que é justamente nessas categorias que o sistema capitalista encontra sua força de exploração.

Racismo ambiental

Compreender o motivo de crises ambientais atingirem majoritariamente negros, indígenas, quilombolas e moradores de periferia faz parte do conceito de racismo ambiental. Como visto nos capítulos anteriores, a desigualdade ambiental não é um resultado do acaso, nem de escolhas individuais: é uma expressão de um padrão histórico da distribuição desigual dos riscos e dos recursos.

A mesma visão de mundo e as mesmas estruturas que objetificam a natureza e dominam a terra também objetificam as mulheres. A agroecologia e o ecofeminismo dissipam essas ilusões, reconhecem a criatividade da natureza, das mulheres e dos agricultores, e criam sistemas de conhecimento e estruturas econômicas que funcionam de acordo com leis ecológicas da natureza e defendem a justiça social e de gênero com base no princípio de que todos os seres humanos são iguais.
Shiva, 2024, p. 118

Os territórios sujeitos a enchentes recorrentes, à poluição industrial, ao despejo irregular de resíduos e à ausência de saneamento básico tendem a ser habitados pela população negra e pobre, devido à herança direta do racismo estrutural e do urbanismo excludente. A afirmação citada de AutorLélia Gonzalez1935–1994Feminismo negro, pensamento decolonialIntelectual e ativista, pioneira do feminismo negro no Brasil. Criou as noções de amefricanidade e de pretuguês, e propôs um feminismo afro-latino-americano. Cofundadora do Movimento Negro Unificado.Ver no Atlas do NEXO acende um alerta ao se tornar ainda mais grave quando relacionada aos impactos ambientais.¹Nota para aprofundamentoPara compreender por que populações negras sofrem de forma desproporcional com desastres ambientais, é indispensável recorrer ao pensamento de Lélia Gonzalez. Sua análise do racismo estrutural demonstra como a formação social brasileira empurra pessoas negras para territórios precarizados, distantes de direitos e mais vulneráveis à violência do Estado e do capital. Justiça ambiental só é possível com justiça racial.Clique para ver a nota

Comunidades tradicionais e povos indígenas sofrem expropriação de seus territórios por forças econômicas que sustentam o capitalismo extrativista: agronegócio, mineração, hidrelétricas. Tornando impossível a existência da crise climática de forma dissociada da violência colonial. O ecossocialismo não se limita a uma crise econômica, ele precisa ser uma crítica histórica da forma como o capital organiza o espaço e define quem tem direito à vida.

O corpo das mulheres e a reprodução da vida

As mulheres, especialmente pobres, negras e periféricas, estão entre os grupos mais afetados pela crise climática. Isso ocorre devido ao processo histórico do capitalismo, apoiado na exploração do trabalho não pago das mulheres.

Na sociedade capitalista, o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens trabalhadores assalariados: o principal terreno de sua exploração e resistência, na mesma medida em que o corpo feminino foi apropriado pelo Estado e pelos homens, forçado a funcionar como um meio de reprodução e a acumulação de trabalho.
Federici, 2017, p. 42

Em ObraCalibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação PrimitivaSilvia Federici, 2004 (original) / 2017 (BR Elefante) / 2024 (BR Boitempo)Feminismo marxista, históriaA obra que demonstrou que a caça às bruxas europeia foi um componente estrutural do capitalismo: não superstição, mas violência fundante contra a autonomia das mulheres e o cercamento dos comuns.Ver no Atlas do NEXO, AutorSilvia Federicin. 1942Feminismo marxista, trabalho reprodutivoPrincipal obra: Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva (2004 (original) / 2017 (BR Elefante) / 2024 (BR Boitempo))Filósofa e ativista feminista marxista. Em Calibã e a Bruxa, demonstrou que a caça às bruxas europeia foi um componente estrutural do capitalismo. Referência central do ecofeminismo materialista e da teoria da reprodução social.Ver no Atlas do NEXO demonstra que o capitalismo só pôde se consolidar quando transformou o corpo das mulheres em instrumento de reprodução da força de trabalho.²Nota para aprofundamentoA crítica feminista à formação do capitalismo, desenvolvida por Silvia Federici, é essencial para compreender por que mulheres, especialmente pobres, negras e periféricas, estão entre os grupos mais afetados pela crise climática. Em Calibã e a Bruxa, Federici demonstra que o capitalismo só se consolidou ao subordinar simultaneamente os corpos das mulheres e a natureza, transformando ambos em recursos a serem explorados.Clique para ver a nota

A crise ambiental intensifica toda essa exploração: quando há enchentes, falta d’água, aumento do preço dos alimentos ou contaminação das fontes naturais, é o ConceitoTrabalho ReprodutivoO trabalho de cuidado e manutenção da vida, historicamente não remunerado e atribuído às mulheres, que sustenta o funcionamento do capitalismo.Ver no Atlas do NEXO das mulheres que aumenta: são elas que buscam água, reorganizam casas destruídas, cuidam das crianças e dos idosos, garantem alimentação e administram a vida diante do colapso.

Caçar as bruxas foi também fundamental para a construção de uma nova ordem patriarcal em que o corpo das mulheres, seu trabalho e seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos.
Federici, 2017, p. 313-314

Sendo assim, a relação direta entre a submissão da natureza e da mulher é percebida ao longo da história como um recurso infinito a ser extraído, tornando-se uma condição necessária para o capitalismo se expandir. Assim, o ecossocialismo feminista não é um acréscimo identitário ou moral; é uma análise materialista: a crise ecológica aumenta a exploração das mulheres porque o capitalismo depende dessa exploração para sobreviver.

Para relacionar o movimento feminista com a ecologia alguns nomes são usados, como o ConceitoEcofeminismoA análise que liga a exploração da natureza à opressão das mulheres como faces da mesma lógica de dominação.Ver no Atlas do NEXO, ecossocialismo e ecossocialismo feminista. Seguiremos abordando a diferença entre cada um deles, não a fim de encerrar o assunto, mas apenas de gerar uma base para mais pesquisas e aprofundamentos.

AutorVandana Shivan. 1952Ecofeminismo, crítica da Revolução VerdePrincipal obra: Terra Viva: Minha Vida em uma Biodiversidade de Movimentos (2022 (original) / 2024 (BR Boitempo))Física, ativista e uma das vozes mais influentes do ecofeminismo global. Fundou a Navdanya, movimento pela soberania de sementes, e denuncia a monocultura como destruição simultânea da biodiversidade e dos saberes tradicionais.Ver no Atlas do NEXO é um dos principais nomes da defesa do ecofeminismo, que surge nos anos 1970-1980 a partir de um movimento de mulheres que criticavam tanto a destruição ambiental quanto o patriarcado, relacionando a ideia de destruição da natureza e dominação das mulheres.³Nota para aprofundamentoA reflexão de Vandana Shiva em Terra Viva amplia a compreensão de que a crise ecológica é inseparável do patriarcado, do colonialismo e da violência econômica. Shiva denuncia como a agricultura industrial, as corporações globais e o extrativismo colonial intensificam desigualdades sociais e ecológicas, afetando de maneira desproporcional mulheres, povos originários e comunidades camponesas.Clique para ver a nota

As mesmas forças que degradam a natureza são as que degradam a vida das mulheres. A lógica da dominação é comum: transformar tudo em recurso e mercadoria, retirando sua autonomia, sua história e seu significado.
Shiva, 2024, p. 45

Três correntes, três alcances

O que difere o ecofeminismo do ecossocialismo feminista é que mesmo os dois denunciando o patriarcado e o extrativismo, nem sempre o ecofeminismo critica a economia política com a mesma profundidade do ecossocialismo, ainda assim compreende como o gênero e a ecologia se entrelaçam.

O ecossocialismo, como visto nos capítulos anteriores, tem como base uma leitura marxista da crise ecológica, partindo da ideia de que o capitalismo destrói o metabolismo entre humanidade e natureza, transformando bens comuns em ConceitoMercadoriaO objeto produzido para a troca, que reúne valor de uso e valor. Marx começa por ela porque é a célula onde o capitalismo inteiro já está.Ver no Atlas do NEXO e fazendo o lucro se tornar maior que a vida. Contudo, ele não explica sozinho o porquê de essa destruição recair mais sobre mulheres, pessoas negras e indígenas.

Por esse motivo surge o ecossocialismo feminista, que une a análise estrutural do capitalismo e da propriedade privada, combinando com a centralidade dos corpos e da reprodução da vida.

Sequência para diferenciação

  • Ecofeminismo: liga a opressão das mulheres e da natureza; nem sempre é anticapitalista.
  • Ecossocialismo: crítica marxista da crise ecológica; nem sempre aborda gênero e raça.
  • Ecossocialismo feminista: crítica anticapitalista, feminista e racial ao mesmo tempo. Explica quem sofre mais a crise climática e por quê, e afirma que patriarcado, racismo e colonialismo são engrenagens do capitalismo ecológico destrutivo.

É a partir dessa perspectiva que avançaremos, nos próximos capítulos, para pensar como essas ideias podem dialogar com a educação e com a prática docente do ensino básico.

Notas para Aprofundamento

¹

Para compreender por que populações negras sofrem de forma desproporcional com desastres ambientais, é indispensável recorrer ao pensamento de Lélia Gonzalez. Sua análise do racismo estrutural demonstra como a formação social brasileira empurra pessoas negras para territórios precarizados, distantes de direitos e mais vulneráveis à violência do Estado e do capital. Justiça ambiental só é possível com justiça racial.

  • GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
²

A crítica feminista à formação do capitalismo, desenvolvida por Silvia Federici, é essencial para compreender por que mulheres, especialmente pobres, negras e periféricas, estão entre os grupos mais afetados pela crise climática. Em Calibã e a Bruxa, Federici demonstra que o capitalismo só se consolidou ao subordinar simultaneamente os corpos das mulheres e a natureza, transformando ambos em recursos a serem explorados.

  • FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.
³

A reflexão de Vandana Shiva em Terra Viva amplia a compreensão de que a crise ecológica é inseparável do patriarcado, do colonialismo e da violência econômica. Shiva denuncia como a agricultura industrial, as corporações globais e o extrativismo colonial intensificam desigualdades sociais e ecológicas, afetando de maneira desproporcional mulheres, povos originários e comunidades camponesas.

  • SHIVA, Vandana. Terra viva: minha vida em uma biodiversidade de movimentos. São Paulo: Boitempo, 2024.
Mulheres e criança negras e indígenas diante de fogo, favela e terra rachada.