
Capítulo VI
Ecossocialismo e a Educação
Por que reciclagem não basta, o que a BNCC abre e onde a pedagogia freireana encontra a crise ecológica.
Pensar o ConceitoEcossocialismoA corrente que une a crítica marxista ao capitalismo com a defesa radical da natureza: não há transformação ecológica sem transformação social.Ver no Atlas do NEXO na educação é essencial diante do modo como as questões ambientais vêm sendo tratadas nas escolas brasileiras. Mesmo a educação ambiental estando presente nos currículos, sua abordagem permanece superficial, reduzida a práticas como reciclagem, economia de água e plantio de mudas. Essa superficialidade, longe de ser inocente, está ligada ao ConceitoCapitalismo VerdeA promessa de conciliar crescimento econômico e proteção ambiental sem tocar na lógica de acumulação: uma falsa solução.Ver no Atlas do NEXO, produzindo uma visão limitada e reproduzindo a responsabilização individual.
Nesse sentido, é fundamental uma educação que avance para a perspectiva crítica, relacionando meio ambiente, sociedade, trabalho e desigualdade. Não tratar a ecologia por essa ótica mantém uma Educação Ambiental descontextualizada da realidade devido a sua limitação. A educação ecossocialista não descarta as práticas pontuais e individuais, contudo, é necessário um aprofundamento para uma mudança real.
O ecossocialismo e a educação ambiental têm a potência para dar início a processos de conscientização capazes de criar as “brechas históricas” pelas quais se poderão construir alternativas rumo a sociedades verdadeira e profundamente democráticas e sustentáveis.
O que a escola brasileira ensina, e o que deixa de fora
Temas relacionados com a ecologia e o meio ambiente têm sido um assunto recorrente em vários vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), mostrando a relevância do tema. Contudo, é possível notar que o conceito do ecossocialismo não vem sendo abordado na maioria dos livros didáticos, sendo, de certa forma, até tratado com certo preconceito. Assim, alunos e professores não têm acesso facilitado a essa informação, fazendo com que a maioria dos alunos não conheça o tema, sendo um prejuízo ao conhecimento.
Além disso, professores, quando desejam instruir os alunos, podem encontrar dificuldades tanto na pesquisa do tema quanto no pouco tempo disponível para expandir os assuntos em sala, devido ao fato de o capitalismo não tratar a educação com justiça. Cargas horárias excessivas e atividades obrigatórias deixam o professor refém de um sistema, com aulas e exposições já estipuladas.
Em uma pesquisa proposta por Trajber e Mendonça (2007) no território nacional, foi realizada uma investigação sobre quais eram os principais motivos para se ter Educação Ambiental nas escolas. A pesquisa foi direcionada ao corpo docente das escolas brasileiras e constatou-se que 38% dos participantes buscavam conscientizar para a cidadania e 19% acreditavam se tratar de sensibilizar para o convívio com a natureza, solidariedade e zelo planetário. Outros objetivos aparecem com menos destaque, como compreensão crítica e complexa da realidade socioambiental e preservação dos recursos naturais.
Um outro aspecto relacionado a essa questão é entender como a escola define o que é a Educação Ambiental. Cabe esclarecer que, ao se elaborar essa pergunta, a intenção era obter, de forma clara, uma definição de Educação Ambiental que pudesse expressar ou se aproximasse da multiplicidade de tendências pelas quais ela é atualmente percebida e desenvolvida. Porém, constata-se que pouquíssimas escolas esboçaram uma definição para a Educação Ambiental desenvolvida na escola.
Os temas abordados nas escolas fazem parte de um discurso já existente no cotidiano da população brasileira, porém, como observado nos estudos sobre o ecossocialismo, não são atitudes que sozinhas realmente causarão um impacto ambiental de mudança.¹Nota para aprofundamentoA educação crítica, inspirada em Paulo Freire, é essencial para uma prática ecossocialista porque rompe com a ideia de neutralidade escolar e entende a sala de aula como espaço de leitura e transformação do mundo. A abordagem freireana reforça que a crise ecológica não pode ser ensinada apenas como fenômeno natural, mas como resultado de relações sociais, econômicas e políticas que precisam ser problematizadas coletivamente.Clique para ver a nota
As brechas que a BNCC abre
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe assegurar aos alunos uma formação humana integral que vise à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Dessa forma, a própria BNCC abre espaços para debates fundamentais como ConceitoJustiça SocioambientalO reconhecimento de que injustiças sociais e ambientais se sobrepõem e devem ser enfrentadas como uma só.Ver no Atlas do NEXO, crise ecológica, desigualdades ambientais, consumo e produção sustentáveis, que são propostas também pelo ecossocialismo.
Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções com base nos conhecimentos das diferentes áreas.
A BNCC orienta uma formação de cidadãos conscientes, críticos, comprometidos com a democracia, fazendo com que a educação não seja neutra frente à crise ambiental. Essa ênfase na coletividade é uma das bases do ecossocialismo. A visão não individualista também está presente na interdisciplinaridade: a organização da BNCC por áreas do conhecimento (Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens, etc) permite abordagens transversais.
Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
Ainda que a BNCC defina conteúdos mínimos, permitir que cada escola ou rede adapte seu currículo à realidade local cria uma oportunidade para trabalhar o ecossocialismo de uma forma ainda mais contextualizada, dialogando com diversas realidades, formando sujeitos críticos, conscientes e atuantes.²Nota para aprofundamentoA BNCC, ao enfatizar formação integral, criticidade e responsabilidade socioambiental, cria um espaço legítimo para a inserção de práticas pedagógicas ecossocialistas. Entretanto, para que essa oportunidade se concretize, é necessário superar interpretações superficiais da Educação Ambiental e avançar para reflexões que abordem modelos de produção, consumo e desigualdade ambiental.Clique para ver a nota Os estudantes, a partir de uma formação integral, têm a possibilidade de uma educação além da transmissão de conteúdo técnico, sendo possível uma participação social ativa na construção de novos mundos possíveis.
A Educação Ambiental deve promover valores, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, entendendo a necessidade de transformar modelos de produção e consumo e de enfrentar os impactos socioambientais decorrentes das ações humanas.
Ensinar é um ato político
Pensar a educação a partir de uma perspectiva ecossocialista implica em reconhecer o ato de ensinar como ato político. A escola não é neutra e a educação ambiental tampouco. AutorPaulo Freire1921–1997Pedagogia crítica, educação popularPrincipal obra: Pedagogia do Oprimido (1968)Patrono da educação brasileira; formulou uma pedagogia da libertação centrada no diálogo e na consciência crítica.Ver no Atlas do NEXO já apontava que o processo educativo deve promover emancipação, criticidade e consciência histórica.³Nota para aprofundamentoA crítica à Educação Ambiental tradicional, centrada em atitudes individuais, tem sido amplamente discutida por pesquisadores brasileiros da Educação Ambiental Crítica. Eles demonstram que práticas como reciclagem ou plantio de mudas, quando desvinculadas de debates sobre desigualdade, território e capitalismo, reproduzem uma visão reducionista e insuficiente.Clique para ver a nota A educação ecossocialista dialoga profundamente com a pedagogia freireana, buscando formar sujeitos capazes de compreender e transformar o mundo.
Não há educação neutra. A educação ou é libertadora, permitindo que os educandos se tornem sujeitos de sua própria história, ou é domesticadora, mantendo-os na condição de objetos.
Ao pensar o meio ambiente é necessária uma ConceitoConscientizaçãoO processo pelo qual sujeitos analisam criticamente sua realidade, reconhecem as contradições que a organizam e se percebem capazes de agir sobre ela.Ver no Atlas do NEXO real. Uma frase comumente divulgada como sendo de Chico Mendes, uma importante figura na luta ecológica, afirma que “ecologia sem luta de classes é jardinagem”, isso se deve à falta de transformações realmente profundas em um pensamento ecocapitalista. Dessa forma, a ConceitoEducação Ambiental CríticaEducação que liga a crise ecológica às estruturas sociais que a produzem, contra o ambientalismo individualizante.Ver no Atlas do NEXO propõe uma relação entre a natureza, sociedade, poder, território e desigualdades estruturais. A educação ecossocialista caminha um pouco mais à frente, ao articular a crítica ecológica com a crítica econômica e política.
A conscientização é um compromisso histórico. É também um compromisso político. Não pode existir verdadeira conscientização fora da práxis libertadora.
A BNCC reconhece que é preciso transformar modelos de produção e consumo, sendo a mesma compreensão do ecossocialismo ao denunciar o produtivismo capitalista como causa da crise ecológica. Trabalhar o ecossocialismo nas escolas não é uma doutrinação; é o aprofundamento crítico da Educação Ambiental, conforme a BNCC exige. A divulgação de um conteúdo claro, estruturado e bem fundamentado, além de ajudar no combate às fake news, é extremamente importante para um novo olhar acerca dos conhecimentos apresentados, visando a quebra de paradigmas estereotipados.
Levar às escolas a educação ecossocialista transforma o ambiente escolar em um espaço vivo de reflexão e emancipação, oferecendo ferramentas para que os estudantes compreendam a crise ambiental como fenômeno social, histórico e político, não apenas como problema natural ou moral.
A educação não é apenas um espaço de transmissão de saberes, mas de construção de mundos possíveis. Ao incorporar o ecossocialismo ao cotidiano escolar, contribui-se para formar uma geração que se reconhece como protagonista da luta por uma sociedade ecologicamente equilibrada, socialmente justa e profundamente democrática.
No próximo capítulo, vamos olhar com mais cuidado para a BNCC e seus limites, e para a ConceitoPedagogia Histórico-CríticaA teoria pedagógica de Saviani fundada no materialismo histórico: a escola como transmissora do saber elaborado, condição de emancipação da classe trabalhadora.Ver no Atlas do NEXO como fundamento para ocupar as brechas que ela deixa.
Notas para Aprofundamento
A educação crítica, inspirada em Paulo Freire, é essencial para uma prática ecossocialista porque rompe com a ideia de neutralidade escolar e entende a sala de aula como espaço de leitura e transformação do mundo. A abordagem freireana reforça que a crise ecológica não pode ser ensinada apenas como fenômeno natural, mas como resultado de relações sociais, econômicas e políticas que precisam ser problematizadas coletivamente.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
- GADOTTI, Moacir. Educação e compromisso social. São Paulo: Cortez, 2011.
A BNCC, ao enfatizar formação integral, criticidade e responsabilidade socioambiental, cria um espaço legítimo para a inserção de práticas pedagógicas ecossocialistas. Entretanto, para que essa oportunidade se concretize, é necessário superar interpretações superficiais da Educação Ambiental e avançar para reflexões que abordem modelos de produção, consumo e desigualdade ambiental.
- BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2017.
- GUIMARÃES, Mauro. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 2000.
A crítica à Educação Ambiental tradicional, centrada em atitudes individuais, tem sido amplamente discutida por pesquisadores brasileiros da Educação Ambiental Crítica. Eles demonstram que práticas como reciclagem ou plantio de mudas, quando desvinculadas de debates sobre desigualdade, território e capitalismo, reproduzem uma visão reducionista e insuficiente.
- LAYRARGUES, Philippe Pomier; LIMA, Gustavo Ferreira de. Educação Ambiental Crítica: do ecologismo ao ecossocialismo. São Paulo: Cortez, 2014.
- CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2012.

Expandindo o tema
Para seguir daqui
- vídeoMostra que a Educação Ambiental deve ser crítica e política, questionando o modelo capitalista e suas consequências socioambientais, uma visão alinhada ao ecossocialismo.
- artigoA pesquisadora Sueli Furlan defende que a Educação Ambiental precisa ir além de ações pontuais e deve incluir reflexão crítica sobre sociedade, território e desigualdades, formando estudantes capazes de compreender as causas estruturais da crise ambiental.
- documentárioTarja Branca: A Revolução que Faltava (2014) destaca como imaginação, ludicidade e criticidade são fundamentais para uma formação humana emancipadora, mostrando que a educação deve ir além da técnica.

