Paulo Freire é o autor mais citado pelos professores brasileiros, e também o mais mal lido. Reduzem sua obra à 'dialogicidade' como técnica de sala de aula. O que está em jogo é mais radical: uma recusa epistemológica do modelo em que o professor sabe e o aluno aprende. Na educação ambiental, essa distinção é decisiva. Quem trabalha com comunidades ribeirinhas, agricultores familiares ou populações periféricas já encontrou o paradoxo: o especialista que 'ensina' sustentabilidade para quem sempre viveu de modo sustentável. Freire nomeou esse paradoxo antes de existir o campo. Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Autonomia deveriam ser leituras de formação inicial, não de pós-graduação.Por que importa
Contribuições ao pensamento
Crítica à educação bancária
Denunciou o modelo em que o professor deposita conteúdos em alunos passivos, propondo a educação problematizadora como alternativa dialógica.
Pedagogia dialógica
Fundou uma pedagogia centrada no diálogo genuíno entre educador e educando como co-sujeitos do ato de conhecer e transformar o mundo.
Método de alfabetização de adultos
Desenvolveu um método a partir de palavras geradoras ligadas à realidade dos educandos, testado com sucesso em Angicos e reconhecido internacionalmente.
Conceito de práxis pedagógica
Articulou a unidade entre reflexão e ação transformadora como fundamento de qualquer educação que se pretenda libertadora.
Leitura de mundo como pré-condição
Formulou que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, integrando a educação à consciência crítica da realidade histórica do educando.
Freire formulou sua pedagogia no Nordeste brasileiro dos anos 1950-1960, marcado por analfabetismo estrutural e profunda desigualdade. Dialogou com a Teologia da Libertação, o existencialismo e o marxismo humanista. O golpe militar de 1964 transformou seu método em ameaça ao regime e o levou ao exílio. Durante 16 anos no exterior, sua obra dialogou com movimentos de libertação da África, da América Latina e dos Estados Unidos, tornando-se referência para educadores comprometidos com a transformação social em todo o mundo.
Uma vida em camadas
Os mesmos anos lidos em três alturas: o mundo, o campo de ideias e a própria trajetória.
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Recebidas
Externas
- Erich Fromm
- Albert Memmi
- Álvaro Vieira Pinto
Biografia(expandir)
Paulo Freire (1921–1997) foi educador, filósofo e pensador brasileiro, nascido no Recife, numa família de classe média que empobreceu durante a crise de 1929. A fome que conheceu na infância moldou sua compreensão de que a educação não é neutra — ela sempre serve a alguém e a algum projeto de mundo.
Formado em direito, dedicou-se à educação popular no Nordeste brasileiro nos anos 1950 e início dos 1960. No Movimento de Cultura Popular do Recife e depois como coordenador do Programa Nacional de Alfabetização do governo João Goulart, desenvolveu um método de alfabetização que partia das palavras geradoras do universo cultural dos próprios educandos, negando a ideia de que alfabetizar é apenas transmitir um código. Em 1964, com o golpe militar, foi exilado. Passou pelo Chile, Estados Unidos e Suíça, onde escreveu suas obras mais conhecidas.
Em Pedagogia do Oprimido (1968), desenvolveu a crítica à educação bancária — a concepção de que educar é depositar conteúdos em alunos passivos — e propôs a educação como prática da liberdade, fundada no diálogo, na problematização da realidade e na conscientização. Os conceitos de práxis (unidade entre reflexão e ação), de tema gerador e de educação como ato político atravessam toda a obra.
Retornou ao Brasil com a anistia em 1980 e foi Secretário de Educação do município de São Paulo entre 1989 e 1991. Em 1997, foi declarado Patrono da Educação Brasileira. Suas obras foram traduzidas para mais de quarenta idiomas e influenciam movimentos pedagógicos em todos os continentes.
- FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade, Paz e Terra, 1967.
- FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação?, Paz e Terra, 1969.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança, Paz e Terra, 1992.
- STRECK, Danilo; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime (orgs.). Dicionário Paulo Freire, Autêntica, 2008.
- GADOTTI, Moacir. Paulo Freire: uma biobibliografia, Cortez / IPF, 1996.
- HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir, Martins Fontes, 2013.Acessar →
Paulo Freire, no Atlas vivo do NEXO.
