Federici oferece ferramentas conceituais para três debates que não saem da agenda pública: a crise do cuidado, o colapso ambiental e a crítica ao capitalismo verde. Professores de educação ambiental encontram em Calibã e a Bruxa a fundamentação histórica que conecta exploração de mulheres e destruição da natureza ao mesmo processo. Não duas metáforas paralelas: a mesma operação de acumulação primitiva. No Brasil, suas ideias circulam nos movimentos feministas, nas pesquisas sobre trabalho doméstico e nos debates sobre povos originários e territórios. Nenhum professor que trabalhe com gênero, natureza e capitalismo consegue ignorar Federici.Por que importa
Contribuições ao pensamento
A acumulação primitiva tem gênero
Marx descreveu a metade visível da acumulação primitiva: a expropriação das terras. Federici demonstrou a outra metade: a violenta sujeição dos corpos das mulheres à função reprodutiva do capitalismo. Para que houvesse trabalhadores assalariados, era preciso que alguém os gerasse, os alimentasse, os cuidasse. Esse alguém foram as mulheres. O capitalismo não pagou por esse trabalho. Transformou-o em natureza, em amor, em obrigação.
A caça às bruxas como guerra de classe com dimensão de gênero
Entre os séculos XV e XVII, estimativas históricas indicam que cerca de 50 a 100 mil pessoas foram executadas na Europa e nas colônias acusadas de bruxaria. A maioria era mulher, muitas vezes idosa, pobre, parteira ou curandeira. Federici demonstrou que esse genocídio não foi superstição religiosa. Foi uma operação política sistemática para destruir formas de autonomia feminina incompatíveis com o capitalismo emergente: o conhecimento botânico e médico, o controle da reprodução, as formas comunais de vida.
O corpo como o primeiro cercamento
O capitalismo realizou dois cercamentos simultâneos. O primeiro, historicamente reconhecido, foi o cercamento das terras comuns (enclosures). O segundo, invisibilizado, foi o cercamento dos corpos, especialmente os femininos, que passaram a ser geridos como máquinas de reprodução da força de trabalho. Assim como as terras comuns precisavam ser cercadas para gerar acumulação, os corpos das mulheres precisavam ser disciplinados para que o capitalismo pudesse reproduzir-se.
O trabalho doméstico como trabalho invisível
A campanha dos anos 1970 por Wages for Housework não era reformista: era uma forma de tornar visível aquilo que o capitalismo precisava manter invisível para funcionar. Toda a jornada laboral do trabalhador assalariado é sustentada por horas de trabalho não pago em casa, majoritariamente realizado por mulheres. Nomear esse trabalho, exigir remuneração por ele, era desfazer a naturalização que o tornava exploração invisível.
Os comuns como alternativa anticapitalista
Na fase mais recente de sua obra, Federici articula sua análise histórica com a proposta dos comuns: formas de organização coletiva da vida (da terra, do cuidado, do conhecimento, do alimento) que existiram antes do capitalismo e que precisam ser reconstruídas como alternativa a ele. Não há saída anticapitalista que não passe pela reconstrução de relações de cuidado, de trabalho compartilhado e de soberania sobre os territórios e os corpos.
Para compreender Federici, é necessário entender o problema que ela se propôs a resolver. Quando Marx escreveu O Capital, descreveu com precisão como o capitalismo nasce de um processo violento: a expulsão dos camponeses de suas terras, a destruição das formas comunais de vida, a transformação de seres humanos livres em trabalhadores assalariados. Esse processo, chamado acumulação primitiva, é o capítulo fundante do capitalismo. O que Marx deixou em aberto foi a seguinte pergunta: o que aconteceu com as mulheres nesse processo? Quem sustentou biologicamente a reprodução da força de trabalho? Quem cuidou dos enfermos, educou as crianças, produziu alimentos para os trabalhadores? Federici se debruça exatamente sobre esse silêncio. Ela escreve a partir de um período histórico específico: os séculos XVI e XVII europeus, em que dois processos ocorreram simultaneamente. O primeiro foi a expansão colonial para as Américas e a África. O segundo foi a grande caça às bruxas na Europa. Para Federici, esses dois processos não eram coincidências. Eram as duas faces de um mesmo projeto de violência fundante. O capitalismo não surgiu apenas expropriando terras. Surgiu também disciplinando e controlando os corpos, especialmente os corpos das mulheres.
Uma vida em camadas
Os mesmos anos lidos em três alturas: o mundo, o campo de ideias e a própria trajetória.
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Externas
- E. P. Thompson
- Mariarosa Dalla Costa
- Selma James
- Mario Tronti
- Antonio Negri
- Leopoldina Fortunati
Biografia(expandir)
Silvia Federici nasceu em Parma, Itália, em 1942, e migrou para os Estados Unidos em 1967 com uma bolsa Fulbright para realizar seu doutorado em Filosofia na Universidade de Buffalo. Ali entrou em contato com os debates do marxismo operaísta italiano e com os movimentos feministas em ascensão no ambiente universitário norte-americano.
Em 1972, cofundou o Comitê Internacional Feminista ao lado de Mariarosa Dalla Costa e Selma James, lançando as bases para a campanha internacional Wages for Housework. A campanha não era apenas uma reivindicação salarial: era uma declaração teórica de que o trabalho doméstico e reprodutivo das mulheres sustentava o capitalismo sem ser reconhecido como trabalho.
Ao longo das décadas de 1980 e 1990, Federici ampliou sua pesquisa para a história da caça às bruxas, da acumulação primitiva e da colonização. O resultado dessas décadas de pesquisa foi publicado em 2004: Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. No Brasil, o livro foi publicado pela Elefante em 2017 e reeditado pela Boitempo em 2024, tornando-se um dos textos mais citados nos movimentos feministas e na academia brasileira contemporânea.
Professora emérita de Filosofia e Política Internacional da Hofstra University (Nova York), Federici continua ativa nos debates sobre feminismo, comuns e anticapitalismo. Sua obra mais recente, Beyond the Periphery of the Skin (2020), analisa o corpo como campo de disputas políticas do século XXI.
- FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva, Boitempo, 2024.
- FEDERICI, Silvia. A Revolução do Ponto Zero: Trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas, Elefante, 2019.
- FEDERICI, Silvia. Reencantando o Mundo: Feminismo e a Política dos Comuns, Elefante, 2022.
- FEDERICI, Silvia. Para Além das Fronteiras da Pele, Elefante, 2022.
- FEDERICI, Silvia. Wages Against Housework [original em inglês], Power of Women Collective / Falling Wall Press, 1975.
- FEDERICI, Silvia. Caliban and the Witch [original em inglês], Autonomedia, 2004.
- DALLA COSTA, Mariarosa; JAMES, Selma. As mulheres e a subversão da comunidade, 1972.
- BHATTACHARYA, Tithi (org.). Teoria da Reprodução Social: remapear a classe, centralizar a opressão, Elefante, 2023.
Autoras relacionadas
Silvia Federici, no Atlas vivo do NEXO.
